Nova Prata, 03 de Dezembro de 2020

O luto e a reorganização familiar

No mês em que homenageamos as pessoas que já morreram, pensei em trazer uma reflexão sobre o luto em uma perspectiva diferente, o da reorganização familiar.
Quando falamos de luto é preciso entender que, além do impacto individual, também existe o impacto sistêmico. Alguns especialistas, no campo da terapia familiar, afirmam que quando uma família experimenta uma perda, os familiares são atingidos de diversas formas e apresentarão uma série de reações, dependendo de vários fatores como idade e estilos individuais de enfrentamento, situações de seus relacionamentos e as diferentes posições na família. Emoções fortes podem aparecer em variados momentos, incluindo raiva, frustração e desamparo, entre outros.
A morte na família envolve múltiplas perdas: da pessoa, de papéis e de relações, da unidade familiar intacta e a de esperanças e sonhos por tudo o que poderia ter sido.
O falecimento de uma pessoa querida pode influenciar a dinâmica de uma família, pois o sistema familiar necessitará de uma reorganização de papéis. Alguns membros poderão sentir a necessidade de assumir responsabilidades e mudanças de relacionamento dentro da família. Como exemplo, um filho que ao perder o seu pai entende que é necessário “assumir o papel de pai” em casa para dar conta de tarefas que o pai não mais realizará. Esse filho poderá assumir a responsabilidade financeira e até mesmo o cuidado dos irmãos mais novos. Cabe salientar que esse filho não deverá permanecer nesta posição “de pai” por muito tempo, pois para assumir este papel estará abrindo mão de estar em outro e isso lhe trará prejuízos a longo prazo. Essa situação deverá se manter apenas até a família conseguir se reorganizar e voltar a sua rotina.
Quando a família apresenta um bom funcionamento, a ajuda mútua aos membros colabora para um processo de adaptação à situação de perda. A liberdade de comunicação e expressão de sentimentos, a harmonia familiar e a resolução construtiva das diferenças de opinião são os principais requisitos para uma família funcional enfrentar situações de vida estressantes.
Muitas vezes ouço de pacientes que não podem e/ou não devem falar sobre a pessoa que se foi, pois isso deixará os seus familiares ainda mais tristes. Na verdade, é bem ao contrário, pois quando falamos das nossas dores e tristezas para as pessoas que nos amam, damos a oportunidade de ação a eles, de acolhimento e carinho conosco. Todos precisamos falar para elaborar a dor da perda, isso faz parte do processo de luto pelo qual todos passaremos até o final da vida.

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