Nova Prata, 13 de Dezembro de 2017

Romances modernos

Vou contar aqui uma historinha bem conhecida para a maioria das mulheres. Já acompanhei como expectadora e também como personagem. Por vê-la retratada novamente à minha volta, acho que sempre é válido relembrá-la.
Ele parecia o príncipe encantado. O cara mais lindo, mais querido, mais prestativo. Era perfeito até demais, daqueles de desconfiar da bondade do Santo Antônio. Após algum tempo de namoro, o príncipe começou a se transformar em dragão, porque sapo era pouco. Primeiro foram comentários sobre o corpo dela, os quilos a mais do que ele julgava conveniente. Mas é claro que ele estava falando por causa da saúde dela, nada mais que isso. A seguir, o menosprezo com as coisas que lhe eram caras, a indiferença com suas conquistas, a falta de interesse por seus gostos e hábitos, sua família e seus amigos. E aí veio o ultimato: ou ela melhorava ou estava tudo acabado. E ela se esforçou, entrou na academia, começou a priorizar as questões dele, dar mais atenção, tentou se enquadrar o máximo que pôde na vida que ele julgava ideal. Só que no meio do processo, ao melhorar o corpo, sua autoestima, minada pelos comentários desagradáveis, despontou novamente. Com isso, foi revendo suas prioridades. Descobriu que sua felicidade não dependia de agradar o parceiro, que ninguém consegue ser feliz vivendo a vida que o outro lhe impõe. Quando a gata borralheira virou cinderela, entendeu que só ela poderia se salvar da tirania do príncipe.
Conto isso porque estou cansada de ver gente se anular em nome da felicidade prometida, que só pode ser encontrada em si mesma. Conto isso porque é impressionante a confusão mental que um homem com boa argumentação pode causar na cabeça de uma mulher, a ponto de fazê-la se sentir culpada por não ser perfeita, e triste por não conseguir agradar da forma como gostaria.
Sim, as mulheres são mais suscetíveis a essas manipulações, afinal até a minha geração, as meninas eram criadas para casar e se submeter ao provedor da família.
Perdi a conta dos primeiros encontros bizarros que tive, de chegar em casa sem saber se eu ria ou chorava, abismada mesmo. De homens “meia-boca” convencidos que eram o bilhete premiado da loteria. Um dia seleciono as melhores para contar aqui. Pelo menos esses encontros serviram para dar boas risadas, passado o momento, e para saber o que eu não queria.
Essa é a diferença. Conheço um monte de mulheres incríveis, solteiras, independentes, bem articuladas, doces, batalhadoras, amorosas e prontas para assumir um relacionamento bacana, construir um futuro lado a lado. Em compensação, por muito tempo, acho que procurei no lugar errado, porque a maioria dos homens com quem saí para um primeiro encontro sem “referências” sólidas se mostraram o protótipo do “dono da verdade superprotetor eu sou o cara você vai perder se não ficar comigo”. As mulheres que eu conheço, pelo menos, não vestem a máscara de matadora, ser superior, melhor do mundo.
Sei que deve ter um monte de caras legais por aí, também esperando conhecer alguém que satisfaça suas expectativas, sem ter que mudar totalmente sua essência, é só uma questão de reconhecimento.
A história que contei mais acima no texto é real e me entristece. Deveria ter um sinal de alerta cravado na testa de predadores vestidos de príncipes.

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