Nova Prata, 23 de Fevereiro de 2018

Complexo de Vira-Lata

Vocês sabem o que significa o chamado “Complexo de Vira-Lata”? O termo foi criado pelo dramaturgo e escritor Nelson Rodrigues quando o Brasil perdeu para o Uruguai na Copa do Mundo de 1950. O trauma sofrido criou um complexo de inferioridade na população. Segundo ele: “por complexo de vira-lata” entendo eu a inferioridade em que o brasileiro se coloca, voluntariamente, em face do resto do mundo. O brasileiro é um narciso às avessas, que cospe na própria imagem. Eis a verdade: não encontramos pretextos pessoais ou históricos para a autoestima.”
Confesso que nunca sofri desse complexo e tenho um pé atrás com o tipo de brasileiro que só enxerga o seu país da forma mais pessimista e exagerada. Que acha que tudo que vem de fora é melhor, que os outros países, principalmente do hemisfério norte, não têm problemas.
Por óbvio que a classe dominante no Brasil – leia-se aqui política e empresarial, de mãos dadas com boa parte do judiciário anda trabalhando duro para nos fazer morrer de vergonha do nosso amado Brasil.
São infinitos paradoxos: de um lado eu vejo um povo hospitaleiro, alegre, criativo, bem-humorado. Em muitos países as pessoas não se tocam, não se abraçam, mulheres têm que andar atrás de seus maridos, nunca a seu lado. Já ouvi de pessoas que moraram fora do Brasil que se você ficar doente, está literalmente ferrado, porque os planos de saúde são caríssimos, a maioria da população não tem condições de arcar com eles, e em atendimento particular, você gasta uma fortuna, e nem sempre é bem atendido. Pois então, temos muito a caminhar ainda, mas aqui no Rio Grande do Sul, por exemplo, temos hospitais com referência nacional em tratamento de várias doenças que atendem pelo SUS, como por exemplo a Santa Casa de Porto Alegre. Muita coisa deve nos dar orgulho.
Em compensação, nos últimos tempos, eu fico imaginando como chegam certas notícias lá fora. A começar pelo absurdo de um governo que nomeia Ministra do Trabalho uma mulher que enfrenta processos na Justiça do Trabalho. Após suas declarações, o mínimo que dá para supor é que ela desconhece as leis trabalhistas (nem vou falar da pressão feita pelo pai dela, pivô de um dos maiores escândalos de corrupção e que está lá, no Congresso, eleito novamente...ô povo sem memória).
Também me “racha a cara” de vergonha ter que explicar, para qualquer estrangeiro, como pode um governo que tem uma Proposta de Emenda à Constituição (PEC) segurá-la enquanto não consegue votos suficientes para aprová-la no Congresso. Sim, estou falando da reforma da previdência. É escandalosa a forma como o governo trabalha. Legítimo seria colocar a PEC em votação, e acatar a decisão tomada pela maioria dos deputados, representantes de seus eleitores. Não é assim que funciona na atual conjuntura: o governo está segurando a proposta até conseguir comprar o máximo de deputados possíveis e garantir a aprovação do projeto, para depois colocá-lo em votação. Agora me digam, isso é democracia?
Temos a tragédia de Mariana e a impunidade da Samarco. Engraçado que a justiça funciona rapidamente em casos específicos. Em outros, engaveta e esquece os processos.
Por fim, e não menos importante, parece que finalmente os peões até agora úteis nesse jogo de xadrez que é a política no nosso país estão sendo ameaçados e descartados. Os até agora grandes heróis julgadores nos casos da lava-jato começaram a ser atacados e expostos por seus super-salários, especificamente pelo fato de boa parte deles receber auxílio-moradia, mas ter imóvel próprio, enquanto boa parte da população sequer tem onde morar. Ora, não é de hoje que juízes, promotores e parlamentares recebem auxílio-moradia.
Como cereja do bolo da vergonha da situação brasileira, nosso judiciário, beneplacitamente, deixou prescrever alguns processos que tinham por objeto a corrupção de membros bem poderosos da nossa política, como José Serra e Romero Jucá.
É meus amigos, uma coisa eu sei: apesar de não sofrer do complexo de vira-lata, às vezes tenho muita vergonha de explicar o que acontece no nosso país, pois o Brasil não é para amadores.

Veja outros colunistas

Para que repor um dente perdido?

Reinaldo Zanotto

Reinaldo Zanotto

[ Leia mais ]

Não me enquadre onde não me encaixo

Cíntia Bettio

Cíntia Bettio

[ Leia mais ]

Algumas considerações

Eduardo Motta Caldieraro

Eduardo Motta Caldieraro

[ Leia mais ]