Nova Prata, 21 de Abril de 2019

A lama que te cobre

O assunto das últimas duas semanas é Brumadinho. É triste que seja esse o assunto das duas últimas semanas. Deveria ser assunto há três anos. Não deveria ter saído de pauta desde o crime de Mariana. Deveria ser assunto há dez anos, 20 anos. Talvez se fosse pauta constante, teríamos as mais de 300 vidas a salvo e mais todas as outras que vão sofrer as sequelas físicas e psicológicas. A máxima de que todos temos memória curta é verdadeira. Um espera pelo outro e nós esperamos que alguém tome providências. O problema nunca é meu ou seu.
Talvez, apenas talvez, se o processo de Mariana tivesse andado, se o presidente da Samarco estivesse preso junto com todos os executivos, engenheiros, técnicos encarregados de inspecionar as barragens e políticos que sempre dão um jeito de flexibilizar a legislação ambiental, com a mão bem molhada pelos investidores, acionistas e demais sanguessugas das mineradoras, não precisaríamos agora chorar tantos mortos e nos entristecer com tanta lama que cobre as nossas cabeças.
O minério dá muito dinheiro para o Brasil, mas a que preço? Num país sério, tinha um bando de gente presa já, desde Mariana. Acho desprezível o discurso de que “lá fora tudo é melhor, tudo funciona”. Sempre fui bairrista com o meu Brasil. Sempre achei um país maravilhoso e o defendi, independente de quem está no seu comando. Afinal, políticos não definem o povo generoso e lindo que o compõe. Basta acompanhar o trabalho incansável dos bombeiros, que não receberam nem o 13º salário ainda. Estão lá lutando por vidas, ao menos para dar um enterro digno, trazer os filhos sem vida para o colo dos pais.
Somos um país muito melhor que isso. Somos um país de pessoas trabalhadoras, batalhadoras, alegres. Como nos deixamos enredar por um bando de sorrateiros que escolhem deixar uma barragem a ponto de rompimento, porque calculam os custos menores e o lucro maior, do que dar segurança e condições aos seus funcionários, às pessoas que vivem ao redor destes elefantes brancos? Não costumo desejar o mal, mas vê lá se a diretoria e acionistas da Vale frequentavam o centro administrativo, o refeitório que se encontrava exatamente no caminho da barragem.
Uma certeza, a cúpula da Vale sabia do risco. Todos os profissionais que avaliaram, examinaram laudos, sabiam do risco. Entendo que às vezes o grito de um, sozinho, alertando, gritando, deixa um gosto de impotência na boca e no estômago. Mas se não aprendermos a gritar, crimes como Mariana e Brumadinho continuarão acontecendo. Porque quem vive do poder e da ganância não está nem aí para a miséria humana, para a tragédia anunciada. E eu falo de tragédia em relação às famílias desfeitas, aos sonhos interrompidos. Em relação aos que tomam as decisões, e aos que se calam, eu os chamo de criminosos. E a nós, de coniventes. No último vídeo que eu vi, atestadamente de Brumadinho (porque pipocaram nas redes fake news, para variar – parece que o Brasil agora se alimenta disso) o funcionário aos berros incita todo mundo a correr e solta, numa última sentença: aconteceu! Todos sabiam que ia acontecer. Num dia ou no outro. Com eles lá ou não. Por esses eu choro. Por quem sabia que ia acontecer, mas não tinha voz e visibilidade para ser ouvido. Sinto um pesar profundo pelas vítimas da Vale e por todos nós, apáticos e mudos, que não cobramos, que não fiscalizamos, que deixamos Mariana passar em brancas nuvens, sem presos, sem punições. Lembramos e postamos e cobramos para ninguém, para os seguidores da internet, nos aniversários das mortes, dos crimes. E em todos os outros momentos? Não é possível que não tenhamos um instrumento de pressão popular, não é possível nessa era de conexão absoluta que milhões de vozes não se façam ouvir. Vem pra rua? Sim, vamos agora. Vamos participar de qualquer ato ou manifestação de apoio às famílias que poderiam ser a sua. Solidariedade atrás da tela não adianta nada.
Reincidente no crime, agora a Samarco oferece cem mil reais por vítima. A vida do seu filho vale cem mil reais? Ofereça cem mil reais para matar o presidente da Vale, o presidente da Samarco e não sofrer outras punições. Mas é claro, nem destituídos dos cargos eles foram, porque “seria ruim para os investidores estrangeiros”. Ruim já está, há muitos anos, a nossa imagem perante investidores e comunidade internacional. Um país que passa a mão na cabeça desse tipo de gente não pode ser levado a sério nem pelos seus filhos mais queridos, que somos nós, que o carregamos nas costas.

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