Nova Prata, 24 de Março de 2019

A voz do carnaval

Nessa semana em que brincamos o carnaval, foi bem interessante ver a quantidade de críticas sociais levadas para a Marquês de Sapucaí por quase todas as escolas de samba do grupo especial do Rio de Janeiro. Isso sem falar em São Paulo e nos blocos carnavalescos espalhados por todo o Brasil. Nestes, imperaram as fantasias criativas denunciando o machismo, a homofobia, o racismo, a violência e a má política. O carnaval é uma festa popular e bem democrática. O povo sai às ruas dando vazão à criatividade e ao bom humor, sem esquecer das dificuldades e lutas diárias.

Nesta exata semana, três líderes indígenas foram mortos no Brasil.

Nesta semana, o neto de um ex-presidente morreu e nas redes sociais pipocaram comemorações com o fato. A criança tinha sete anos de idade e dos altos escalões do governo, apenas silêncio, com uma exceção, o lho do presidente vai a público, em uma rede social, canal mais utilizado pela família, manifestar o seu ódio traduzido na afirmativa de que o ex-presidente não deveria ser autorizado a acompanhar o velório e enterro, porque iria se vitimizar.

Ora, nenhum avô que enterra um neto precisa se vitimizar. A tragédia e a dor já são respostas suficientes. A dor profunda que ele sentiu eu já senti. Quando a ordem natural da vida se inverte, não há lado político que justifique tamanha crueldade.

Neste mês, a morte de Marielle Franco completa um ano, sem nenhuma resposta concreta. Também sobre a sua morte espalharam enxurradas de notícias falsas, na intenção de deturpar a sua imagem e diminuir a importância e gravidade do seu assassinato.

Um teólogo e ex-pastor de Porto Alegre publicou um texto de grande repercussão nesta semana, em alusão ao enredo da escola de samba Gaviões da Fiel, que levou a mensagem: “o diabo venceu” e ele está certo.

No caso do texto, Tiago Santos se refere especificamente à igreja evangélica e a figuras como Silas Malafaia, mas eu estendo o sentido a todas as igrejas. Diz ele, resumidamente, que quando a igreja faz arminha com a mão, silencia sobre a retirada de direitos de trabalhadores, comemora o assassinato de uma líder social, ajuda a espalhar mentiras em redes sociais, se preocupa com cor de roupas de crianças ao invés de se preocupar com a desigualdade e apoia a possibilidade de guerra com outro país para atender interesses geopolíticos de superpotências, o diabo venceu.

E a preocupação ridícula de políticos com o carnaval, sob a bandeira da promiscuidade, do aumento do consumo de drogas lícitas e ilícitas e do feriado desnecessário para o crescimento do país apenas esconde o seu descontentamento com as críticas sofridas, televisionadas e espalhadas por todas as redes, bem ao seu gosto.

E eu completo dizendo que, quando parte da população se sente autorizada a escarnecer da morte, seja ela de um indígena, de uma mulher, de um gay ou do neto do Lula, não se importa com a violência crescente contra as populações mais vulneráveis, representada por vários dos líderes do país. Enquanto o carnaval for refúgio de diversão, resistência, liberdade e expressão, terá sentido como um oásis no meio da loucura em que nos metemos.

 

Por Cíntia Bettio - advogada

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