Nova Prata, 20 de Julho de 2019

Expectativa

A expectativa é uma coisa estranha. A gente se esforça para não esperar nada de ninguém, mas vivemos em teias conectadas de pessoas, apoiando e sustentando uns aos outros, cada um fazendo sua parte para ser feliz e fazer quem ama feliz também. Isso já é expectativa, e que nos invade quase sempre de forma involuntária.

Das minhas memórias mais antigas, lembro da Cíntia no jardim da infância e nos primeiros anos do primeiro grau - sim, jovens, era como se chamava o ensino fundamental naquele tempo – sempre metida nas peças de teatro e apresentações escolares. Nervosa no palco do salão do Colégio Aparecida, atrás daquela velha cortina de veludo vermelho, já de uniforme, ou fantasia, esperando a hora do locutor conclamar os presentes a cantar o Hino Nacional, todo mundo perfilado com a mão no peito, ouvindo o toca-discos ressoar: “Ouviram do Ipiranga as margens plááácidas...” e depois o grande momento, o momento em que aquela velha cortina, esplendorosamente, se abria.

Enquanto isso não acontecia, nós empurrávamos os atores, declamadores de jograis, poetas mirins, todos engomadinhos, buscando os pequenos buracos da cortina de veludo, procurando na plateia os pais. Ansiosos, esquadrinhávamos aquela fila infinita de cadeiras atrás de rostos familiares. E quando os encontrávamos, sabíamos que tudo daria certo. Que éramos especiais mesmo.

Meus pais, os dois com seus empregos, quase sempre se atrasavam. Era uma agonia aquele olho assustado encaixado na fresta da cortina, vendo aquele mar de pessoas entrando no salão e ocupando os lugares vagos. Também nas laterais do palco, um monte de cabecinhas balançantes, que abriam o sorriso, cutucando os colegas e apontando para os seus, já acomodados na plateia. Olha ali, olha ali minha mãe, meu pai, minha vó.

Apesar de alguns atrasos, que davam mais emoção ao fato, meus pais sempre chegaram a tempo, eu os localizei em cada apresentação que fiz, antes de entrar em cena. E até hoje, lembro da estranha sensação da procura, da insegurança e da importância de encontrá-los antes da apresentação. A partir daí, tudo estava em seu lugar. Parece coisa de filme, mas juro que acontecia comigo. É como se nada pudesse dar errado, é o conforto e a proteção das pessoas que tu mais confia no mundo. Observação: pais, por favor, se puderem, jamais faltem a uma apresentação dos seus filhos, a uma entrega de boletins, a qualquer coisa que lhes diga respeito.

O tempo foi passando, a criança foi soltando aos poucos a mão dos adultos, as amarras. Foi bom aprender a caminhar com as próprias pernas, mas demora sim, um bom tempo, até a gente começar a tomar as próprias decisões, a não esperar que os outros as tomem por nós.

À medida que vamos soltando os laços, aprendemos também a não depositar as expectativas da felicidade nas atitudes do outro. As decisões são suas, a vida é sua, e só você é responsável por ser feliz ou não.

Embora ninguém viva numa bolha, tentar direcionar ou controlar quem o cerca, achando que se agirem da forma que você considera perfeita vai te satisfazer é um grande erro, um erro que só leva à frustração. Muito necessário, nessa vida, separar o cuidado, a orientação e o amor da velha e boa expectativa. Da expectativa que o outro reze a sua cartilha, que siga os seus passos ou o que você planejou para ele. Que vibre com suas vitórias. Isso a gente tem quando é pequeno, quando mostra um trabalho de escola e teus pais te elogiam, orgulhosos.

Também não dá para passar a vida querendo que alguém te estenda a mão e resolva por ti toda situação difícil, complicada ou que você, por preguiça, não queira resolver. Essa é a fase de mostrar o trabalho pro coleguinha, todo orgulhoso, e receber um “ah tá” de volta. Aí começa a frustração.

E a terceira situação, tão complicada quanto as demais, é quando você estende a mão esperando algo em troca. São dois os erros cometidos. O primeiro, é o próprio ato de fazer algo esperando uma contrapartida. Ela pode vir ou não. O outro pode reconhecer ou não. Você pode receber confetes ou não. E a falta de reconhecimento derruba muita gente. Que passageiro isso. Que fugaz.

Cuide dos seus e siga caminhando, sem olhar para trás. Ame e aproveite tudo que puder. Tenha consciência de quanta gente não tem uma mão que se estenda, e de quanta gente não estende a mão. Não tem problema. Cada um no seu quadrado, oferecendo o que pode e recebendo quando dá. O resto a gente bota na caixinha de guardar tesouros e sacode bem, fazendo tudo misturar. Assim o dar e o receber viram a mesma coisa inseparável, como duas amigas dando as mãos.

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