Nova Prata, 17 de Outubro de 2019

Nossa casa

Desde muito nova tenho o sonho de conhecer a Amazônia. Ainda adolescente, trabalhei como secretária de uma arquiteta de Nova Prata que participou do projeto Rondon. Eu ficava encantada ouvindo suas experiências e histórias.
O projeto Rondon leva estudantes de várias áreas, através de suas faculdades para “somar esforços com as lideranças comunitárias e com a população, a fim de contribuir com o desenvolvimento local sustentável e na construção e promoção da cidadania”, como está descrito no site do Ministério da Defesa, responsável pelo projeto. Hoje, as regiões prioritárias de atuação são aquelas que apresentam baixo índice de desenvolvimento humano. Na época em que eu era estudante, ele era desenvolvido basicamente na Amazônia.
A Amazônia é a floresta que representa mais da metade das florestas tropicais remanescentes no planeta. Seu território abrange nove países, sendo que 60% fica em terras brasileiras.
Nós temos o tesouro mais precioso do planeta, não tenho nenhuma dúvida. A amazônia legal, que faz parte da bacia amazônica no Brasil, ocupa toda a extensão dos estados do Acre, Amapá, Amazonas, Mato Grosso, Pará, Rondônia, Roraima, Tocantis e parte do estado do Maranhão. É neste riquíssimo bioma que se escondem outras riquezas, como por exemplo o aquífero Alter do Chão e a Reserva Indígena Raposa Serra do Sol, terra demarcada na gestão de Fernando Henrique Cardoso.
A Raposa Serra do Sol é uma das maiores terras indígenas demarcadas do país, com mais de um milhão e setecentos mil hectares, lar de diversos grupos indígenas. É também palco de conflitos desde a época de Getúlio Vargas, ou antes ainda: arrozeiros, garimpeiros, aventureiros. Reza a lenda que reside sob este território uma imensa jazida de diamantes (até aqui, fica só na lenda mesmo). Um dado interessante é que a desocupação dos arrozeiros foi ordenada em um processo movido pela primeira indígena advogada do Brasil, Joênia Wapichana.
É na Amazônia que vivem algumas das últimas tribos isoladas do mundo. Tribos que não têm contato com a civilização, tamanha a profundidade da floresta, considerada o pulmão do mundo. Influencia no clima de quase toda a américa latina. Um gigante que vem perdendo força.
Não é novidade que o desmatamento vem sendo até mesmo incentivado por alguns estados, como Roraima, no caso da Raposa Serra do Sol, que chegou a subsidiar insumo para os agricultores que ocuparam irregularmente partes da reserva. Vários organismos de controle e monitoramento foram criados ainda nos anos da ditadura militar, e desde que a tecnologia foi aprimorada, os índices de desmatamento só aumentam, mas não de uma forma tão vertiginosa como nos últimos meses.
Mudanças na política ambiental encorajam grileiros, extrativistas, agricultores, fazendeiros. Lideranças indígenas são mortas à luz do dia. A floresta está pedindo socorro. Os índios pedem socorro. A vida do planeta pede socorro.
Essa permissividade política é calculada, criminosa. Se com políticas de proteção já era difícil controlar o desmatamento, imagine agora, com um Ministro do Meio Ambiente que é tudo, menos ambientalista. Que nega o desmatamento apontado por dados de organismo ligado ao próprio governo, o INPE, que até semana passada era comandado por Ricardo Galvão, respeitado físico e engenheiro.
Esse governo que aí está, nega o óbvio e faz vistas grossas ao crescimento alarmante do desmatamento e dos assassinatos na área. É a teoria adolescente do “não lembro, não aconteceu.” A teoria do negacionismo é burra, é perigosa. Atinge de morte o presente e o futuro.
Há algumas décadas, a preocupação principal eram organismos internacionais atuando na floresta. A preocupação hoje é desnecessária. O Brasil vai acabar com o Brasil.

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