Nova Prata, 19 de Outubro de 2020

O brado que não se ouve

Na semana que se comemora a independência do Brasil, não vejo motivos para comemorar um país alquebrado, retrógrado e preconceituoso. Nem a nossa capenga democracia.
Sim, capenga ainda, engatinhante e já tão surrada. A nossa novíssima democracia comandada pela velha política.
Temos que considerar, claro, que a ditadura durou 21 anos no Brasil, terminando em março de 1985. Míseros 35 anos. E como ocorreu em alguns países latino-americanos, o regime autoritário teve origem com um golpe militar, que derrubou um governo democraticamente eleito. Foi assim aqui, onde os militares derrubaram o governo de João Goulart, como foi no Chile, onde o General Augusto Pinochet tomou o poder de Salvador Allende em setembro de 1973. Infelizmente, Allende não teve a mesma sorte de Jango, que exilou-se no Uruguai. Allende foi morto.
Mas, como escrevem Levitsky e Ziblatt no livro “Como as democracias morrem”, nem sempre há uma data marcada por um grande espetáculo público, como uma marcha militar que toma o palácio do governo, que mata o opositor. Não. Muitas democracias morrem por dentro. Quando discursos demagógicos e donos de altas popularidades se apresentam como salvadores da pátria, como heróis prontos a sacrificar qualquer coisa pelo “patriotismo”, desconfie.
Hitler foi conduzido ao posto de chanceler da Alemanha desta forma. Um líder populista, com um discurso coerente, que pregava o nacionalismo extremo e os valores morais que uma Alemanha dominada pela crise queria ouvir. As raposas velhas o apoiaram na certeza de que poderiam controlá-lo. Foi o erro mais mortal da história.
Uso esses fatos históricos para homenagear a nossa independência, porque no meu entendimento, desde os tempos do Império, pouca coisa mudou. Continuamos comandados pelos mesmos interesses, representados por grupos que se alternam no poder de uma forma rançosa, cheirando à naftalina.
E como podemos sentir o enfraquecimento da democracia? Quando falta transparência, falta diálogo entre os atores políticos e os atores sociais. Quando governos começam a censurar matérias de jornais e televisão, enfraquecem os órgãos de controle, seja com cortes de pessoal qualificado e competente, seja por cortes de direitos e garantias. Por mais que tenhamos divergências no campo político, quando você enxerga a debandada de técnicos e a ascensão de demagogos, começa a se preocupar. Não que essa preocupação vá fazer muita diferença. Porque o grosso do povo fica engessado mesmo, sem ação.
Essa semana, a maior opositora do governo de um país chamado Bielorrussia (ou Belarus) foi sequestrada à luz do dia, sumiu. Assunto global. Nenhuma medida efetiva que vá trazer essa mulher de volta. Nesta semana, vemos o Pantanal agonizar (o que não é de hoje). Nenhuma medida efetiva que dê um fim às queimadas. Hoje, enquanto escrevo, leio notícia de que um partido de esquerda votou a favor do perdão da dívida de um bilhão acumulada por igrejas e templos, de todos os segmentos, enquanto o auxílio emergencial a famílias de baixa renda cai de R$ 600,00 para R$ 300,00. Então, demagogia para o discurso que condena o governo, mas vota a favor.
Nosso problema não é moral, não é social, é de profundo desconhecimento da história e de política também. Enxergamos micro, o entorno. Não temos noção do macro, o mundo. Que aquela decisão tomada lá em Brasília, por exemplo, sobre o fim da estabilidade do servidor público vai lhe atingir uma hora ou outra. Porque aquele servidor qualificado, que tem segurança para tomar uma decisão que não agrade seus superiores, vai ser substituído por servidores que precisam manter seus empregos e vão seguir ordens políticas. Uma hora isso vai chegar até você.
E não pense que essa reforma vai atingir cargos de liderança. Vai atingir professores, policiais, o cara que lhe atende lá no Instituto Nacional do Seguro Social (INSS), na Receita Federal. Se essa reforma passar, serão cargos de troca-troca. Lembra? Quem é mais velho que eu? (ou não) Vota em mim que lhe dou um cargo. Eu tiro quem está lá e lhe coloco no lugar. Se essa promessa lhe agrada, você merece o mundo do jeito que está.
Por fim, retornando ao mundo da história: para que não se esqueça, para que nunca mais aconteça.

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