Nova Prata, 14 de Abril de 2021

Ilusões

Procurando aleatoriamente algo para assistir na Netflix num fim de semana qualquer, sem muita paciência para filmes mais densos, me deparei com um documentário sobre uma big festa nas Bahamas, o Fyre Festival. Na verdade, um festival que nunca aconteceu.

A história, resumida, é a seguinte: um playboy megaempresário, a fim de promover um aplicativo de músicas de sua recém criada empresa, a Fyre Media, começa a divulgar um festival de luxo nas Bahamas, numa ilha que dizia ter pertencido a Pablo Escobar e que declarava ter comprado.
Nos vídeos promocionais do festival, o rapper Ja Rule, famoso nos Estados Unidos, juntou-se a ele, e foram incluídas dezenas de modelos internacionais, como Bella Hadid e Hailey Baldwin, hoje esposa de Justin Biebber.

Uma ilha paradisíaca com belíssimas mulheres em iates, se divertindo. Muita gente famosa, chamadas de vídeo mostrando o melhor das Bahamas. Começaram as vendas de ingressos. Muitos famosos e anônimos em alvoroço nos Estados Unidos.

O festival prometia semanas em bangalôs luxuosos, iates, grandes celebridades da música e muita diversão e ostentação. Basicamente, após a divulgação, o megalomaníaco Bill McFarland, o CEO e idealizador do festival, contrata profissionais da área da mídia, da música, de eventos, que compraram sua ideia e arregaçaram as mangas na organização. Um frisson só. Bill já contava com investidores que acreditavam nele, já que em 2013 havia fundado o Magnises, um “clube voltado para a geração do milênio”, que consistia num cartão super exclusivo que abria as portas da nata americana.

 

Um jovem inovador, filho de incorporadores, com ideias mirabolantes de sucesso. O festival estava marcado para abril e maio de 2017. Semanas de uma vida única, especial, exclusiva.

 

Até os verdadeiros donos da ilha, que era alugada, descobrirem e determinarem a sua desocupação. Primeiro problema: encontrar uma nova ilha em curto período de tempo. Os colaboradores, desesperados, encontraram então a ilha de Great Exuma, não tão paradisíaca, por ser habitada. Transferiram o festival para um canto desta nova ilha e continuaram trabalhando nos preparativos.

Quanto mais se aproximava a data, mais problemas apareciam. Organização, acomodações, transporte aéreo e terrestre, alimentação, superlotação. Enquanto a equipe se desesperava, Bill convencia a todos que ia dar tudo certo, que algumas poucas mudanças não iam ofuscar o brilho do festival. E convenceu muita gente.
O cenário não era o mesmo das filmagens. Agora era um canto de uma ilha habitada, com construções cercando o espaço do festival. As cabanas luxuosas foram substituídas por barracas de acampamento. A empresa que entregaria as refeições finíssimas cancelou o contrato, assim como várias estrelas da música. Motivo: falta de pagamento.

Neste momento, enquanto a produção parecia um campo de guerra, os trabalhadores contratados na ilha se matavam para, literalmente, levantar os acampamentos, o público começava a chegar.
Os “influencers” e “vips” estranharam desde o avião comercial que aguardava para levá-los à ilha (esperavam os românticos bimotores e jatinhos, bem ao estilo ilha da fantasia e bem mais exclusivos e caros).

E, finalmente, na ilha, o caos se instalou. Ninguém acreditava que ficaria em barracas de acampamento e não em bangalôs ao estilo Bahamas vip. Filas na sede do evento para entender o que estava acontecendo, quebra-quebra nas barracas, roubos, gente perdida, centenas de pessoas dormindo no aeroporto minúsculo. E então o anúncio: não haveria festival. Estava cancelado.

Vários colaboradores, em seus depoimentos, dizem que estavam prevendo e avisando a tragédia que seria o evento meses antes. Vários pularam do barco e vários foram demitidos por causa do “pessimismo”.
A cereja do bolo: com o fiasco, descobriu-se que Bill era um golpista. Vivia de vender sonhos extravagantes, arrecadar investimentos e encobrir com novos golpes. Os investidores perderam dinheiro, colaboradores também. E os trabalhadores nunca receberam pelos serviços prestados, nem o público pelos ingressos caríssimos que lhes dariam direito a áreas exclusivas e outras maravilhas.

Bill foi preso, e ao final do documentário, após sua saída da prisão, foi encontrado planejando novos eventos, usando um laranja para enviar ofertas de ingressos para eventos exclusivos, como o Met Gala, baile tradicional de Nova York, que não tem ingressos à venda. Apenas uma seleta casta de celebridades convidadas.

Moral da história: quando se tem um megalomaníaco no comando, sem experiência em gestão e escolado em falcatruas, você até pode ser convencido por um tempo, dependendo da lábia do interlocutor, mas quando tudo aponta para o caos, só os loucos e desonestos permanecem fiéis a uma ideia furada, e geralmente pagam a conta, que vem bem alta.

 

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