Nova Prata, 14 de Dezembro de 2019

Algumas considerações

Passados quase 16 meses da votação do impeachment da presidente Dilma Rousseff, o que será que aprendemos?
Podemos classificar esse aprendizado em vários aspectos, seja no tocante ao sucessor da presidente, seja na interpretação dada a fatos semelhantes nas duas presidências, seja em relação à complacência da mídia e da sociedade em relação ao aprofundamento da crise moral e ética que já vivíamos no momento do processo.
Estava lendo há pouco uma coluna do presidente da OAB Claudio Lamacchia, escrita em 11 de maio de 2016, e percebo o quão pouco os brasileiros se aprofundaram na análise de como seria o Brasil pós-impeachment. Havia naquele momento um frenesi nacional pela expulsão do PT e da presidente Dilma do poder, como se fosse o apanágio para todos os males, que seriam imediatamente exorcizados de nosso cotidiano.
Vivemos, na verdade, um grande engodo, motivado por razões de ordem ideológica e, é claro, pela motivação dada pelo próprio governo Dilma em não cumprir ditames que cobrava de antecessores e pela incapacidade de sair do canto no incessante boxear da Câmara dos Deputados, através do agora presidiário Eduardo Cunha, que moveu céus e terras para fazer valer a sua vontade, com apoio maciço da mídia e da classe média, outrora em grande parte eleitora do PT.
Será que éramos um país de esquerda e viramos um país de direita? Não creio que seja tão simples essa resposta, mas algumas características do brasileiro foram exacerbadas nesses tempos, como o outrora improvável conservadorismo, que teve vazão através das redes sociais e pela voz de movimentos farsescos, que hoje se servem das benesses de suas decisões, com empregos pelo país inteiro, como o tal MBL.
Um país que se expõe durante o Carnaval, mas que se retrai ao falar de negros, mulheres, gays e todas as demais partes de nossa sociedade que impliquem em aceitar o diferente, o que não significa apoiar ou louvar, apenas e simplesmente deixar viver. Um país que gritou pelo fim da corrupção, mas se cala diante do resultado de seus berros, que é a assunção de um governo provisório, entreguista, corrupto até a espinha e que representa o pior conjunto de políticos reunidos em torno da perpetuação no poder.
Não culpo quem está em silêncio, talvez até por vergonha. Me solidarizo com eles, porque estão sendo tão roubados quanto eu e ainda não se sentem à vontade para assumir que talvez o alvo escolhido não tenha sido o certo, já que deixamos a raposa a cuidar do galinheiro e ela, a raposa, já deixou claro que está faminta.
O episódio da liberação do garimpo na Amazônia mexe num ponto nevrálgico, que é a questão ambiental, mas ele é só um entre os outros tantos praticados de forma vil nos últimos meses, sob o beneplácito de um conjunto de deputados e senadores que causariam desonra até no presídio, quanto mais nas Casas Legislativas que ocupam, contando com o gritante silêncio das ruas.
Até quando?
Por hoje é isso!

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