Nova Prata, 22 de Agosto de 2019

Algumas considerações

Eu paro para pensar às vezes em como os novos tempos repetem incessantemente o passado e muitas vezes se instrumentalizam para tornar nosso futuro ainda mais sombrio.
As relações humanas, até pouco tempo atrás, eram baseadas na convivência real, no olho no olho, no conhecimento físico que tínhamos sobre as pessoas com quem mantínhamos algum tipo de relacionamento, sejam amores, amizades, familiares ou quaisquer outros. Nos relacionávamos de forma direta, mesmo que não instantânea, e tínhamos opinião sobre os outros por experiências pessoais.
Hoje em dia, temos impressões sobre os outros, achamos que conhecemos, pois há uma quase Matrix a imperar nas inter-relações, que formou um pano para que não nos vejamos mais de perto, excluindo a atávica capacidade humana de sentir o outro, de estabelecer um conceito pela intuição, permitindo que haja relação entre personagens, entre avatares, e não mais entre pessoas tipicamente reais.
Esse novo mundo é permeado por gente que se dispõe a representar a si mesmo, transpondo para esse universo a sua verdadeira expressão. Mal comparando, usar as redes sociais hoje seria o equivalente do brocardo in vino, veritas, a expressar que, quando bebemos, costumamos externar nossas reais intenções e ideais. Portanto, dá para dizer o que se quer, livre de amarras sociais, o que nos leva a outro grande dilema: todas as pessoas estão prontas a ter opinião sobre tudo?
Tenho o hábito de ler os comentários nas reportagens dos sites de notícias e fico aparvalhado com a coragem de alguns em dizer tanta asneira. Daí, logo me toco que muitos ali sequer são o bêbado sincero, mas covardes que se escondem atrás de um perfil falso e através dele esquecem qualquer traço de civilidade ou de respeito não ao politicamente correto, mas ao humanitariamente adequado, quase que chegando a um tom tão ridículo que já se vê não verdadeiro.
Mal comparando, o chato da roda de conversa, que era cortado por só dizer asneiras, de uma hora para outra encontrou um ambiente em que pode mostrar que sabe tudo, que tem posição e se vê complementado pela imensidão de outros chatos que compõem em grande parte as redes sociais, que se dão o direito de achar que o mundo precisa se mover por aquilo que ele fala e o resto, bem, o resto é apenas o resto.
São esses mentecaptos que interrompem exposições de arte, que emudecem peças de teatro, que logo estarão ateando fogo em livros em praça pública, porque a parte pensante da internet, hoje minoria, se cala. E, como na poesia de Bertold Brecht “A verdade consegue impor-se apenas na medida em que nós a impomos; a vitória da razão só pode ser a vitória daqueles que a possuem.”
É chegado o tempo do confronto, pelo menos no campo das ideias, e urge sepultar esse silêncio constrangedor que se impôs no país a partir do processo de impeachment, que dividiu pessoas que deveriam estar hoje unidas, lutando para que tenhamos a possibilidade de, pelo menos, termos a chance de possuir divergências e poder discuti-las.
Por hoje é isso!

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