Nova Prata, 22 de Agosto de 2019

Algumas considerações

“Este país não pode dar certo. Aqui prostituta se apaixona, cafetão tem ciúme, traficante se vicia e pobre é de direita”.
Esta frase do Tim Maia resume muito bem algumas das causas do fracasso do Brasil como nação e, ao mesmo tempo, mostra algumas das características conflitantes do povo brasileiro, que volta e meia se vê, justamente por ser tão diversificado e maleável, em meio a guinadas impostas pelos mesmos que a vida inteira comandam a política e a economia do país.
Mas eu iria até além um pouco da frase do Tim. Aqui, trabalhador apoia reforma que o prejudica, ex-ator pornô (Alexandre Frota) quer ditar moral e bons costumes, gente que nunca foi a um museu passa a pedir seu fechamento, deputado que assiste vídeo pornográfico em plena sessão plenária dá discurso moralista, deputado vota durante o dia e dorme na cadeia todas as noites, enfim, temos um mosaico de absurdos que fazem corar de vergonha quem se detem a pensar um pouco que seja.
Creio que muito disso é porque não valorizamos nosso passado, nem nos acertos, nem nos erros. Deixamos de lado as discussões sobre a escravidão, mas nos indignamos contra cotas para negros; não punimos os militares que cometeram atrocidades na ditadura, mas achamos normal que 53 anos depois do golpe militar eles voltem a falar com desenvoltura sobre “intervenção militar; deixamos pra lá as análises reais sobre os anos de chumbo, mas estranhamos porque boa parte da população apoia a perda da liberdade como forma de “organizar a casa”.
O brasileiro troca de opinião com muita rapidez, pois não somos um país de princípios arraigados, não nos acostumamos a valorizar atitudes que sirvam para todos, para o bem ou para o mal. Nossas leis são alteradas a cada período, adequando-se ao andar da carruagem, não indicando uma conduta moral e ética que se perpetue no tempo. Nossos políticos trocam de partido e de opinião a cada mudança de humor das redes sociais e muitos cobram o cumprimento da lei apenas quando não são atingidos.
Já vi pessoas defendendo que o pior do Brasil são os brasileiros e, por vezes, sou tentado a aceitar esse conceito como muito próximo da realidade. Porém, sei que nem mesmo a ideia de que temos um brasileiro-padrão é possível, diante da enormidade continental brasileira, com todas as nuances de cada região e os interesses que movem as consciências para um lado e para outro: os que ontem desfilavam nas ruas contra a corrupção hoje estão em suas casas, parecendo satisfeitos com o que acontece, lambendo os beiços por ter feito um impeachment de quem não lhes satisfazia.
Tenho muito receio de nosso futuro próximo, pois lá na frente tudo tende a se ajeitar. Mas os próximos meses e anos serão de doer, tanto pelas perdas que teremos como pela inafastável obrigação de continuar ouvindo tantos idiotas falando como donos da verdade. E, pior, sendo ouvidos.
Por hoje é isso!

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