Nova Prata, 22 de Agosto de 2019

Algumas considerações

Por esses dias, como ciclicamente acontece em nossa região, há uma família de indígenas na praça de Nova Bassano, confeccionando seu artesanato e tentando vendê-lo para se alimentar.
Se há algo que me pesa na consciência é o que nossa civilização branca europeia fez a essas comunidades quando da chegada ao Brasil (o assunto escravidão negra fica pra outra conversa). Quando chegamos aqui, destruímos toda a qualquer possibilidade de convivência entre raças diferentes, com um mínimo de civilidade: fomos logo partindo para a escravização dos indígenas, sua submissão a nosso meio de viver, a extinção de sua hierarquia própria, o abuso às mulheres, a conversão deles à nossa religião, enfim, fizemos o que toda minoria opressora faz aos demais.
O resultado é uma raça inteira perdida no tempo e no espaço, acusada de ocupar grandes áreas para poucas pessoas e, por isso, seguidamente sendo expulsos de suas reservas para a exploração mineral ou pecuária. Os vemos como vagabundos ou párias, que só se embebedam e ficam sujos, cidadãos de quinta categoria que não servem pra nada. Ou seja, continuamos os mesmos usurpadores, iguais aos ignorantes portugueses que aqui chegaram no distante 1500, ditando regras para quem não se interessa por elas, forçando uma mudança conceitual no que eles veem como vida em sociedade.
Hoje, os indígenas são apenas 0,47% da população brasileira, em número aproximado de 900.000 pessoas, sendo que, destes, 325 mil vivem nas cidades. Na Amazônia Legal são em torno de 430 mil, e é aqui que o agronegócio predatório mais se aprofunda, reduzindo drasticamente as áreas indígenas e condenando as populações a um processo migratório insano e desordenado, que tende a causar uma redução radical nas sua população e nas suas tradições, pelo aculturamento causado pelo contato com a chamada “civilização”.
Na verdade, as pessoas não gostam dos indígenas, os veem como um estorvo ou como vagabundos bêbados, sem analisar o que os tornou o que hoje aparentam ser. Claro que eles têm seus defeitos, afinal, são humanos, mas são o resultado de séculos de submissão a um modelo que não é o deles, e, o que pior, em sua própria nação, a qual chegamos como intrusos e os submetemos às nossas regras, quase sempre de forma violenta e aniquilatória.
Precisamos reaprender, se é que um dia soubemos, a respeitar as diferenças. Precisamos compreender que não é igual a nós não se torna um estorvo ou uma excrescência, mas simplesmente alguém que quer viver de outro modo, por razões de escolha ou definição natural. Dessa convivência entre diferentes pode surgir algo muito melhor, que separe os defeitos e una as virtudes, o que pode ser fantástico. Dizimar quem não nos é espelho é duvidar da evolução da humanidade.
Por hoje é isso!

Veja outros colunistas

Nossa casa

Cíntia Bettio

Cíntia Bettio

[ Leia mais ]

Nossa casa

Cíntia Bettio

Cíntia Bettio

[ Leia mais ]

Abuso sexual infantil

Aline Machado Larrosa

Aline Machado Larrosa

[ Leia mais ]