Nova Prata, 14 de Dezembro de 2019

Algumas considerações

No dia em que escrevo esta coluna está fazendo um ano do falecimento de minha mãe, dona Iracy Motta Caldieraro, em Passo Fundo.
A mãe começou a ficar mais prostrada na primeira semana de outubro do ano passado e foi para o hospital aqui de Nova Bassano, sendo encaminhada no mesmo dia para o hospital IOT, que é uma filial do São Vicente de Paulo, uma referência em saúde, o que nos deixou esperançosos de que ela voltaria pra casa. Infelizmente, depois de um mês na UTI, ela partiu.
Tive a honra de estar com ela em seu último instante. Conversei com ela, lhe disse que entendia que ela estava cansada de uma luta inglória e que nós, eu e meus irmãos, lhe deixaríamos descansar, se fosse essa a sua vontade: poucos minutos depois uma campainha tocou e os enfermeiros entraram no box da UTI, me pedindo pra sair e dizendo que cuidariam dela.
Foi o fim físico de uma batalhadora, que deixou a distante São Borja com sua irmã Darcy para tentar melhorar de vida em Porto Alegre, como fizeram milhares e milhares de pessoas. As duas corajosas fronteiriças buscaram depois o restante da família e, dividindo até os sapatos que compravam, construíram suas famílias e ensinaram uma lição de perseverança e amor que ficará por todas as gerações de nossa família.
Teve várias profissões, mas ficou muito conhecida em nossa cidade por ter sido a primeira mulher fotógrafa, ofício que aprendeu de meu pai. Dificilmente há uma família de Bassano que não possua entre suas fotografias uma com o carimbo da Foto 1, num tempo sem imagens digitais. A mãe fotografou batizados e casamentos de muitas pessoas e ficou, de certa forma, também um pouco na vida deles, o que muito nos orgulha.
Foi uma mãe extraordinária, que amou e encaminhou seus filhos de uma maneira única. Teve nos netos um amparo de vida e, com minha filha Eduarda, uma relação inexplicável, de quem já dividiu experiências em outras vidas, como ela mesma dizia e demonstrava. Adotou Nova Bassano como seu lar e, embora não falasse nosso dialeto, aprendeu a entender para se relacionar com todas as pessoas que estivessem perto dela, de todas as classes sociais, origens, cor, enfim, igualava a todos em suas afeições.
Não consigo ficar triste hoje, porque mais importante que sua morte foi sua vida e tudo o que ela representa pra mim. Sou muito parecido com ela, inclusive nos defeitos, e isso me fez compreendê-la e ser por ela compreendido, numa troca meio simbiótica, que durou por cada instante que a vida nos permitiu conviver, até o derradeiro: ela me trouxe ao mundo e eu estava com ela quando ela partiu deste, o que só me fez ainda mais devedor do oceano de aprendizados que ela me ofertou.
Recomendo a todos que ainda convivem com seus pais que aprendam a ter a noção de nossa finitude, dizendo a eles de sua importância, expressando amor e compreensão a todos os acertos e erros que eles possam ter. Aproveitem com intensidade a presença deles, para que quando eles partirem, tudo sejam boas e reconfortantes memórias.
Por hoje é isso!

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