Nova Prata, 17 de Setembro de 2019

Algumas considerações

E 2017 chega ao fim, com um dezembro para ninguém botar defeito: pai é suspeito de matar o próprio filho de 16 anos, em Tianguá, no Ceará, ao descobrir que ele é gay. E um apresentador da Fox TV, José Ilan, posta em seu Twitter, ao ver uma lata de Coca-Cola com a foto de Pabllo Vittar, que “tem saudades de quando tinha rato na Coca-Cola”.
O que esses dois fatos, aparentemente desconexos, nos mostram sobre o atual estágio de nosso pobre Brasil, no tocante ao respeito pelas diferenças: que ninguém está nem aí para o outro e suas escolhas, mas unicamente interessado em uma visão de um mundo que não deveria mais existir, que é o mundo dos fundamentalistas e retrógrados.
Se vocês me perguntarem se eu gostaria de ter um filho gay ou se eu gosto de Pabllo Vittar, a resposta é a mesma: não. Mas não é isso que está em discussão, pois a minha opinião, bem como a sua, não pode ser mais importante que a realidade e o direito dos outros de existirem. A homofobia, que existe em muitas pessoas que lerão este texto, nada mais é do que a tentativa de negar que pessoas com essa condição tem o direito de existir, o que, quando chega ao seu ápice, pode levar um pai a matar o seu próprio filho, um crime inominável.
Ser homossexual não é escolha, pois ninguém, de livre vontade, escolheria passar por tanta resistência, tantas humilhações, tanto preconceito. Ser homossexual é, não raro, abrir mão da família, de amigos, de emprego, enfim, de uma vida linear. Um filho que tem medo de contar ao pai que precisa de sua ajuda para enfrentar o mundo e recebe dele uma agressão que leva à morte, morre duas vezes, pois jamais viveu na plenitude a sua própria vida.
E, mesmo diante desse quadro, uma pessoa com alcance público diz preferir o gosto de ratos do que a imagem de Pabllo Vittar, o que só reforça nos homofóbicos o seu instinto de que aquilo, a existência de um gay, é realmente um erro, uma desgraça, uma aberração, pois alguém que está na TV todos os dias pensa a mesma coisa! Está assim reforçada a deturpação daquele pai que não quer que os outros vejam e saibam que ele falhou, pois deu vida a essa aberração que não merece viver.
Não sei o que esperar de 2018. Mas o que já desponta é que esse tipo de inconformismo pelo direito alheio tende a piorar, pela radicalização que haverá em virtude da eleição (que não sei se realmente sairá) e porque será um ano chave para a consolidação desse projeto político que tomou o poder, sem a menor vontade de sair e pronto a agudizar reformas que devem atingir de maneira cada vez mais forte as camadas mais pobres da população.
Vou aguardar mais com apreensão do que com esperança, mais com pessimismo do que com expectativa positiva, pois essa indiferença popular também se transmite aos costumes, dando espaço para o surgimento de falsos profetas, hábeis em cooptar e manobrar os sentimentos para um caminho triste, escuro e estreito, tal qual um funil que prende muitos para que poucos passem.
Desejo a todos que sejam mais otimistas do que eu.
Por hoje é isso!

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