Nova Prata, 25 de Setembro de 2018

Apertador de botão

Sou um apertador de botão. Meus descendentes nascerão com cabeça, mas não saberão para que serve. Sou um apertador de botão. Dedico meu tempo a não ter nada a dizer.
Ninguém quer me ouvir. Sou de uma geração que tem muita voz. E nada a dizer.
Eu sou o dedo. Tenho um telefone inteligente. Pouco me importa se já lutaram contra a guerra do Vietnã. Se estou no bar, olho para o telefone. Pouco me importa se cantavam “Caminhando e cantando e seguindo a canção”, continuo na mesma mesa de bar com o mesmo telefone inteligente. Ele tem Shazam e descubro num toque a música que está tocando. Mas nunca escutarei a música até o final.
Invisto meu tempo a ser instantâneo. Não consigo respirar o ar que me cerca. Adoro meu casulo.
Sou uma sopa de pacote.
Ganho dinheiro com pessoas que também precisam de aplicativos que ensinam pra que lado se mistura o pó do pacote quando este já se encontra na panela.
Todos precisam de aplicativos. Abrir os olhos de manhã e fechá-los à noite sozinhos é muito difícil. Minha vida é cheia de janelinhas. Quem se importa com a janela de verdade. A vida é uma ilusão. E eu um apertador de botões.
Computador é fundamental, mas não sei o que há por dentro. Sei onde estão os comandos. O carro é meu melhor amigo. E não sei como os melhores amigos funcionam. Sou um apertador de botão. Por isso tenho cabeça, embora esteja perdida em algum lugar do meu corpo. Não lembro bem onde.
O que importa é a rede social. Falo com o sujeito que senta ao lado. Com cabeça e tudo. Pelo chat do feici. Enquanto fala comigo, ele diz o que pensa para algum de seus botões.
Mas tenho uma vantagem. Posso dizer tudo que quiser. A hora que quiser. Posso fazer uma mensagem chegar lá no Japão e ser lida e compartilhada por dezenas de pessoas em segundos. É só apertar um botão. Não preciso de uma coluna no jornal. Não preciso passar anos suando talento ou fazendo aqueles favores no sofá para conseguir esta coluna.
É só apertar um botão.
Posso dizer tudo que quiser. Tem gente que me confere dez, quinze segundos de sua atenção. Tempo é dinheiro. Tenho muito tempo. E muito a dizer.
Então tiro uma selfie.
Com o máximo de conteúdo inteligente que tenho para mostrar.
Sou tão erudito que na maioria das vezes as selfies vêm acompanhadas de copos de cerveja e churrasqueiras cheias de espetos.
A imagem diz tudo. Não preciso perguntar, duvidar, querer saber mais. No meu mundo provoco uma entusiasmada discussão. O sorriso da selfie é verdadeiro ou falso?
Sou um apertador de botão. Não sei o que foi o movimento beat. Tiro fotos ao lado de latões de cerveja de milho.
Sou apertador de botão.
Posso dizer tudo que quiser. Por isso não mostro aos japoneses a Orquestra Villa-Lobos, compartilho fotos felizes e falsas declarações de amor. Na rede social sou feliz e bem-sucedido.
A capacidade de raciocínio de meus botões é tão rica quanto o líquido que há no interior daquela lata, daquele latão.
Sou apertador de botão. Tenho grandes momentos de interação. Principalmente quando estou à frente do espelho e disparo o clique.

Veja outros colunistas

Implante dentário: como higienizar

Reinaldo Zanotto

Reinaldo Zanotto

[ Leia mais ]

A morte do presidente

Cíntia Bettio

Cíntia Bettio

[ Leia mais ]

Sangramento gengival: um sinal de alerta para o corpo todo

Reinaldo Zanotto

Reinaldo Zanotto

[ Leia mais ]