Nova Prata, 17 de Novembro de 2018

Meu rato

Tenho um rato. Passa por aí de vez em quando. Mais em quando do que em vez. Ainda não descobri o motivo. Deve ser alguma norma de legislação da ratalhada. Ou um toc roedor.
Meu rato fala. No sistema binário. E escreve em braile. Rói, no caso. Mas o mais impressionante não é sua forma de comunicação. São suas previsões. Se eu fosse budista ou espírita, teria convicção que meu rato é uma reencarnação de Nostradamus. Talvez até o chamasse carinhosamente de Damus ao invés de Meu rato.
Porém, não acredito nessas coisas. Sou totalmente cético, ateu, apolítico e discípulo devoto de São Judas, o Tadeu. Meu rato também. Não acreditamos nessas lendas urbanas.
Preferimos lugares sujos aos mascarados. Preferimos pessoas difíceis às mascaradas. Preferimos políticos... bem, não preferimos políticos.
Quando termino de ler um livro, troco uma opinião com Meu rato. O mesmo acontece após as peças de teatro. Ele já leu todos os livros. Morde as partes mais significativas. Mas não se sente muito à vontade no teatro. Por isso costumo usar casacos com bolsos largos. Para que consiga acomodar-se. Ou calças largas, no verão. Meu rato vai direto ao ponto. Após ler Um viajante numa noite de inverno, roeu o mapa do livro e entregou-me um sistema incrivelmente mais simples que me faria escrever uma obra-prima.
Decidi-me por não fazer. Não seria original. E não gosto de copiar os ratos.
Mantenho-o em casa. Bem alimentado. Escondido, na medida do possível. Esses dias fiquei sabendo que há escritores de Porto Alegre que desconfiam do Meu rato. Têm cabelos de palha e olhos de bruxa. Andaram fazendo questionamentos na rede. Desconfio que pretendem raptar Meu rato. Roubá-lo. Obrigá-lo a pôr ovos de ouro.
Contei isso para Meu rato. Ele ergueu as sobrancelhas. Depois pediu um queijo. E mencionou que eu não me deveria preocupar.
Seres humanos que roubam ratos não têm a virtude de entendê-los. E, se por acaso o tentarem, cometem o erro da má interpretação. Da interpretação pela metade. Do olhar superficial. O que, no sistema binário convencional, acarretará num enorme falhaço que pode levar os indivíduos ao estrabismo. Ou a uma internação por leptospirose à moda italiana.
Eu sempre acreditei no que me disse. Por isso, venho amadurecendo uma ideia. Estou seriamente pensando em facilitar esse roubo. Ando descuidando. Deixando o rato quase às mostras. Os olhares têm-se intensificado. Na direção dos meus bolsos. Ainda não tenho certeza se é por causa do rato, da minha carteira recheada ou, bem, de outras coisas que aparentam estar no bolso.
Em minha próxima ida a uma livraria bem frequentada, esquecerei meu rato. Sob olhares atentos. O deixarei lá, sem querer. À mercê dos olhos grandes. E retornarei tranquilo. Com o sorriso irônico de quem acaba de fazer um enorme favor à humanidade.

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