Nova Prata, 16 de Janeiro de 2019

Orgulho

O grande orgulho de todo tupiniquim, em suas conversas de boteco, é dizer que viveu no estrangeiro. Todos sempre enchem a boca para relatar de que forma habitaram Nova Iorque, Paris ou Londres. Hoje em dia, Shangai, Sidnei e Vila Nova de Gaia também já fazem parte do orgulho dos brasileiros. Recém-regressados, crescem em suas cadeiras relatando o quanto ganhavam e o quanto gastavam por semana nestes solos distantes. Nessas horas, quando perguntados sobre o que faziam, os tupiniquins têm por saída uma alternativa aprendida no futebol: o drible da vaca.
Na verdade, não há maior orgulho do que viver no Brasil. Afinal, aqui tudo é mais caro: do vinho às cirurgias de implante mamário. Dessa forma, já que no Brasil o dinheiro dificilmente é suficiente pelas coisas custarem mais e, principalmente, pela saúde e segurança comprometerem grande parte dos nossos ganhos que no estrangeiro são pagos com as arrecadações de impostos, deixamos de investir em supérfluos como cultura e amores passageiros.
Os altos impostos que se perdem nos corredores do governo são as principais causas da nossa safra de artistas estar à mingua e nossos amores passageiros preferirem trabalhar no exterior. O mercado se auto-regulamenta. É a lei da oferta e procura. Você não pode oferecer o que ninguém busca – ou não tem dinheiro para pagar.
Uma solução, para meu caso, seria aprender a escrever metáforas em inglês. Ou virar garoto de vitrine.
Mas não pretendo deixar o mapa tupiniquim.
São Paulo figura há vários anos como uma das cidades mais caras do mundo. Isso é um orgulho. Principalmente para quem sobrevive nela com um salário mínimo. Mas estes não podem gabar-se nas conversas de boteco com o regresso de Londres por uma simples razão: não terá dinheiro para ir ao boteco. Talvez por isso, o filho pródigo encha-se tanto de orgulho.
Mas o maior orgulho que se há de ter no Brasil é sobreviver aos (próprios) botecos. Com a qualidade das nossas cervejas e vinhos, o dia seguinte é sempre um risco ao qual teremos de enfrentar.
Uma cerveja nacional no Brasil custa mais que uma cerveja nacional na Europa. Mas a diferença não é somente essa. O que afeta o dia seguinte é que nossas cervejas dificilmente contém cevada e são fermentadas a base de repolho. Tudo bem, se não quisermos a que desce redondo, podemos pedir uma belga. Mas a belga custa quatorze vezes a mais do que custaria no Hemisfério Norte. Prefiro não falar dos vinhos já que eles praticamente inexistem nos cardápios por preços consumíveis. Dizem que é por causa dos impostos. Tudo que sei é que a provável causa da nossa ressaca comece muito antes do primeiro gole.
Assim, o Brasil torna-se mais caro a medida que exigimos alguns luxos como, por exemplo, o direito ao lazer. Mas o Brasil é sim o país do supérfluo. Nos damos ao luxo de falar português, demorar duas horas nas saídas dos estádios e ficar meia hora assistindo o pessoal do BBB a dormir, na esperança que aconteça algo por baixo do edredom.
O tupiniquim é um privilegiado. Ele tem todo o tempo do mundo. Logo, ele é rico.
Então, da próxima vez que você tiver o privilégio de estar numa mesa de bar e ouvir histórias vangloriosas de quem morou por algumas temporadas em Nova Iorque, London-London ou nos arredores de Paris, suba no salto e aponte o dedo, dizendo: “E você sabe a quanto tempo eu consigo viver em São Paulo?”

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