Nova Prata, 20 de Julho de 2019

Meus fuzis

Esse governo federal é tão costumeiro no ato do voltar atrás que possivelmente esse texto poderia já se tornar obsoleto antes mesmo que eu o termine de escrever. Por isso, decidi, ao invés de falar no governo, falar de meu vizinho.
Ninguém é obrigado a comprar arma, disse alguém do alto escalão do poder tupiniquim esses dias. Tá, pensei de imediato, não vou comprar, não sou obrigado, minha arma, minhas regras.
Um alívio em meio ao ar de desespero. Eu não seria obrigado a gastar trinta mil dinheiros na aquisição de um pedaço de metal que lança projéteis e mata pessoas.
Mas aí meu vizinho, que todo sábado à noite, inala uma quantidade igual ou maior de farinha que minha tia Iva usa pra fazer macarrão na semana, poderá comprar seu fuzil.
Tudo bem, não sou obrigado. É só ficar em casa quietinho e tudo fica bem, pensei.
Mas aí meu vizinho, que todo sábado à noite inala uma quantidade igual ou maior de farinha que minha tia Iva usa pra fazer macarrão na semana e fica gritando pela janela de seu apartamento e acordando a rua inteira nas madrugadas de domingo, poderá comprar seu fuzil.
Mas eu não sou obrigado, foi alguém do alto escalão do governo tupiniquim que disse. Então tudo ficará bem lá em casa.
Mas aí meu vizinho, que todo sábado à noite inala uma quantidade igual ou maior de farinha que minha tia Iva usa pra fazer macarrão na semana e fica gritando pela janela de seu apartamento e acordando a rua inteira nas madrugadas de domingo e ouvindo funk com letras bem sugestivas que dá pra ouvir inclusive na rua de baixo, poderá comprar seu fuzil.
Contudo, madrugada de domingo é só uma vez por semana, pensei. E tem semana em que viajo, e tem madrugada de domingo em que nem estou casa, pensei.
Mas aí meu vizinho, que todo sábado à noite inala uma quantidade igual ou maior de farinha que minha tia Iva usa pra fazer macarrão na semana e fica gritando pela janela de seu apartamento e acordando a rua inteira nas madrugadas de domingo e ouvindo funk com letras bem sugestivas que dá pra ouvir inclusive na rua de baixo e que costumeiramente também sai pra calçada e fica saltando sobre os capôs dos carros estacionados no local, poderá comprar seu fuzil.
Tudo bem, eu não vou gastar trinta mil dinheiros nesse ferro.
Mas meu vizinho vai. Ele já disse que vai, já o ouvi batendo panela. E tem um adesivo bem grande na vidraça de sua sacada mostrando uma arma e a frase “Deus acima de todos”.
É de sabedoria popular que todo sábado à noite ele continuará inalando uma quantidade igual ou maior de farinha que minha tia Iva usa pra fazer macarrão na semana.
Ele continuará gritando pela janela de seu apartamento e acordando a rua inteira nas madrugadas de domingo.
E continuará ouvindo funk com letras bem sugestivas.
E vai saltar por sobre os capôs dos carros estacionados na rua.
E vai fazer tudo isso com um fuzil na mão.
Eu não sou obrigado a comprar. Ele também não. Mas ele vai comprar.
Acho que vou pedir para o relator dessa lei falar pro meu vizinho armado de fuzil não saltar sobre o capô dos carros, nem fazer tudo que ele faz nas madrugadas de domingo depois de inalar tudo que inala de cocaína.
Vou pedir para o pessoal do alto escalão do poder tupiniquim pedir por gentileza que meu vizinho se acalme.
Porque eu não vou. Não vou mesmo. De novo, não.

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