Nova Prata, 23 de Outubro de 2021

Proponho um novo imposto

Em 1789, Benjamin Franklin escreveu a Jean-Baptiste Leroy que “nada neste mundo pode ser tido como certo, exceto a morte e os impostos”. Trata-se de uma verdade tão concreta que a própria frase antecede essa carta e não é de Benjamin Franklin, apesar de inúmeros artigos colocá-lo como o autor. A frase é do inglês Samuel Johnson que, além dessa verdade, escreveu outras como “o patriotismo é o último refúgio do canalha”.

O primeiro registro escrito que retrata a cobrança de impostos é da antiguidade. Trata-se de uma placa, localizada na antiga Suméria, de 2.350 a.C. Não é errado afirmar que a cobrança de tributos se mescla com a história da humanidade. Aliás, tudo que é relativo ao homem, ou seja, próprio de sua natureza, se funde à sua história. E, relativo à natureza do ser humano, saliento: a bondade; a maldade; a caridade; a ganância; a modéstia e a vaidade.

 

"Não é premissa apenas deste atual governo, mas, também, de todos os anteriores, que para a resolução dos problemas a solução fácil é: aplicar dinheiro. E, para isso, basta cobrar mais impostos."

 

O Brasil não é o campeão mundial em cobrança percentual de impostos, mas está bem próximo dos primeiros colocados. Contudo, o Brasil é disparado o país com o maior número de taxas e contribuições e onde mais se gasta para pagar os impostos, tamanha sua complexidade. Em resumo, somos o país que mais demanda tempo (e dinheiro) apenas para realizar a ação de pagar impostos. Nunca a solução de nossos governantes é: cortar gastos supérfluos e desnecessários. Daí somos seviciados a ler que, por exemplo, o Superior Tribunal Federal (SFT) abriu uma licitação de 1,1 milhão de reais para comprar lagostas e vinhos. Depois que a sociedade brasileira se indignou e solicitou a paralisação dessa compra, sabe quem a autorizou? O então desembargador senhor Kássio Nunes Marques. Sabe o que aconteceu com ele depois disso? Foi escolhido, a dedo, pelo senhor Jair Messias Bolsonaro, para ser ministro do STF. Não tenho a informação se deu tempo de ele comer a lagosta que autorizou a comprar ou se já realizaram outras compras.

Gastar milhões e milhões da arrecadação de nossos impostos com: bombons; chantilly; vinho; chicletes e leite condensado não é ilegal. Mas, também, não é só imoral e repugnante. Chega a ser obsceno! Assim como horrendo é a tentativa hipócrita de defender esses gastos. Aliás, na década de 1990, li uma reportagem sobre um treinamento realizado pela elite do exército brasileiro na floresta amazônica onde as elites de exércitos de outros países participavam. Apenas os soldados brasileiros conseguiam concluir o treinamento na selva. Naquela época, os soldados comiam bigatos, formigas, etc. Hoje, leite condensado.

Falando em hipocrisia, há um outro tipo de hipocrisia que vem sendo catalisada na mesma velocidade que uma conexão em banda larga com fibra ótica. Trata-se daquela pessoa (envolvida com a política ou não) que faz questão de mostrar, nas redes sociais, quão caridosa e bondosa ela é. Faz uma doação tomando todos os cuidados com os enquadramentos das selfs. Reparte um lanche com um mendigo sem se esquecer de deixar o microfone ligado. Posta uma foto sorridente ao lado do semblante constrangido da pessoa ajudada, em busca de curtidas e comentários doces. Tão doces quanto o leite condensado.

O evangelista Mateus, antes de aceitar o chamado de Jesus Cristo, era um cobrador de impostos. Veja que coincidência! Em Mateus 6: 1-4 lê-se: “Guardai-vos de fazer a vossa esmola diante dos homens, para serdes vistos por eles...”. “Quando, pois, deres esmola, não faças tocar trombeta diante de ti, como fazem os hipócritas nas sinagogas e nas ruas, para serem glorificados pelos homens.”

Então, com o atual potencial de bilhões em arrecadação, eu proponho ao governo federal a criação do Imposto Sobre Excesso de Hipocrisia (ISEH). Acredito que não irá faltar dinheiro para lagostas, vinhos, bombons e leite condensado, entre outros.

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