Nova Prata, 23 de Outubro de 2021

Entre heróis e desertores

A pandemia nos ensinou muitas coisas. Ou melhor, a necessidade de isolamento social nos ensinou muitas coisas. Algumas empresas não esperaram o segundo cavalo encilhado passar. Minimizaram custos com a exclusão de locação de salas e com transporte de funcionários. Na ponta oposta, porém, também beneficiados, os colaboradores usufruíram o tempo extra que outrora era despendido com o translado casa-trabalho-casa.

Em maio de 2020, auge do isolamento social, acionei a assistência técnica remota de meu notebook. Durante o atendimento, foi necessário esperarmos a atualização de um software. Nesse período, eu, que sou muito curioso, iniciei uma conversa com o atendente. Ele é morador da região metropolitana de São Paulo (Ferraz de Vasconcelos). Falamos sobre futebol, família e trabalho. Quando percebi que o atendimento não se encerraria antes do término do horário final de seu turno, eu disse: vamos encerrar este atendimento e iniciarei outro amanhã. Ele prontamente respondeu: não precisa! Não tem problema que está passando do meu horário, estou trabalhando em home office. A partir daí, a conversa se concentrou nesse tema. Ele me reportou que seus colegas e ele já haviam solicitado à empresa que mesmo após a pandemia continuassem trabalhando nesse regime. Perguntei quanto tempo ele desperdiçava em translado. Pasmem! Ele respondeu: “quatro horas”. Duas para ir ao trabalho e mais duas para voltar. Entre ônibus, trem e metrô. Agora, divague o quanto esse trabalhador estava aproveitando melhor o seu dia.

 

"Uma das outras coisas que aprendemos com a pandemia foi, sim, a valorizar mais os profissionais da saúde. A máxima de que somente quando perdemos é que damos valor, pode ser revisada para: somente quando necessitamos é que damos valor."

 

Médicos e médicas, enfermeiros e enfermeiras, técnicos e técnicas de enfermagem e até os colaboradores de limpeza e higienização (seja dentro de um hospital ou em seu condomínio) foram e são verdadeiros guerreiros. Não à toa, hoje, quando falamos dos trabalhos desses profissionais, utilizamos palavras como: linha de frente, combate, luta, etc. É quase que inevitável comparar esses profissionais a verdadeiros soldados.

Seguindo minha linha de raciocínio, imaginem, ainda que bem difícil para nossa geração conterrânea e contemporânea, o Brasil entrando em guerra. A imensa maioria dos brasileiros tratará nossos soldados como heróis, independentemente do resultado. Aliás, mesmo em tempos de paz, nossos soldados podem e desempenham papel fundamental para a pátria. Além de intervenções constitucionais, como a ocorrida no Rio de Janeiro em 2018, e diversas outras após enchentes e queimadas, em 2019 o exército concluiu o asfaltamento de um trecho da BR 163, Miritituba/Pará (PA). Apesar de trecho curto (51 quilômetros, pouco mais de 1% do total da BR), nenhuma construtora pegou essa “bucha de canhão” tamanha a dificuldade de execução dessa obra.

Mas nem só de heróis é feita uma guerra. Logo após o início efetivo da pandemia no Brasil, inúmeros profissionais da saúde pediram demissão ou anteciparam sua aposentadoria para não trabalhar na linha de frente, ou simplesmente para não trabalhar dentro de um hospital. Faço questão de deixar bem claro que a opinião de cada um deve ser respeitada. Principalmente porque não vivenciamos a vida do outro. Mas certas atitudes merecem repúdio. Dentre elas, a de médicos que voltaram a trabalhar após o anúncio da vacina e pediram demissão logo após tomarem a segunda dose. Outra conduta difícil de assistir e entender é a de inúmeros técnicos de enfermagem fingindo aplicar vacinas em idosos esperançosos. São as chamas “vacinas de vento”. Voltando ao exército, o mesmo que concluiu, e merece elogios, um trecho da BR 163, foi o que comprou, com o nosso dinheiro, 714 toneladas de picanha, 80 mil unidades de cerveja (com sobrepreço) e 1,3 milhão de quilos de carvão.

Então, caro leitor, evite o erro certo de somente elogiar ou somente criticar alguma classe. Mesmo porque, todas as classes são formadas por pessoas. E pessoas são pessoas, né?

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