Nova Prata, 23 de Outubro de 2021

Animador de torcida

A torcida de futebol tem papel fundamental na vida de um time. O principal fator é a possibilidade da própria existência (vida) do clube. Sem a torcida, o time não existe. Trata-se de uma relação de amor, mas ao mesmo tempo, capitalista. O consumo dos torcedores garante o milionário investimento anual do clube. Simples assim.

Lógico que falarei com parcialidade de meu time, o Corinthians. Fala-se que todos os times de futebol têm uma torcida, mas no Corinthians é diferente, a torcida tem um time. Nos primeiros jogos que eu assisti no estádio, principalmente o primeiro, eu não assistia ao jogo, passava a maior parte do tempo assistindo a fiel torcida. Não posso garantir que é diferente de todos os outros times, mesmo porque nunca torci para outro. Mas sempre vejo com satisfação o depoimento de jogadores, técnicos e jornalistas dizendo sobre essa singularidade no meu Timão.

 

A máxima dos torcedores corinthianos responderem, ao serem questionados para qual time torcem, “corinthiano, maloqueiro e sofredor, graças a Deus” traz o substantivo sofredor não à toa. Veio de muito sofrimento.

 

No Timão, tudo é mais sofrido. Somente na adolescência vim entender o porquê a torcida gritava mais alto e vibrava com mais força quando sofríamos um gol. Estranho, né? Você está na torcida e ao ver seu time sofrer um gol, acaba tendo mais força para ajudar o time. A virada de jogo (placar) é, de fato, muito mais saborosa. Lógico que não é sempre que essa sinergia acontece. Deve-se salientar, também, que isso acontece somente durante o jogo. Aquela mesma torcida que apoia e vibra, cobra. Às vezes cobra com mais veemência do que o bom senso permite.

Contudo, “jogo é jogo”. E têm jogos que são muito mais difíceis de serem vencidos. Os jogadores mais experientes percebem uma maior dificuldade “da bola entrar”. Eles acreditam que corra o que correr, chute o que chutar, a bola não vai entrar. Nesse momento, entra em cena aquele jogador que, durante o jogo, já está pensando nas entrevistas após o término da partida. Aí começa a planejar e agir em como conseguir se eximir da responsabilidade de uma possível derrota. Assim, ele começa a “jogar para a torcida”. Irá cobrar e gesticular contra seus próprios companheiros. Balançará a cabeça em sinal de negativo, quando outro jogador perder a bola ou errar um passe. Chegará mais forte em uma dividida contra o adversário. Reclamará veementemente com o árbitro na tentativa de receber um cartão amarelo ou até tentar ser expulso para se dizer “injustiçado”. Tudo isso para mostrar para a torcida que ele lutou, foi guerreiro e não merece receber críticas.

Mas os tempos mudaram. Na década de oitenta o futebol era transmitido de uma forma. Hoje, têm mais câmeras do que jogadores. A informação chega mais rápida e clara para quem assiste ao jogo. Além disso, o próprio futebol mudou. Podemos até discutir se para melhor ou para pior, se ganhou justiça e se perdeu o encanto. Tudo isso, é passível de discussões, sejam elas parciais ou imparciais. O que é indiscutível é o fato de não caber mais essa malandragem de “jogar para a galera”. Os reais resultados conquistados por esse jogador são: prejudicar seu time e dividir a torcida.

Acredite, parte significativa da torcida tem o discernimento de que isso não é jogo, é teatro. E artista não tem que estar em campo, jogando, tem que estar no palco, entretendo.

“Eu quero ver gol, eu quero ver gol. Não precisa ser de placa, eu quero ver gol.”

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