Nova Prata, 28 de Setembro de 2021

Acima de tudo o amor — parte 1

Na década de cinquenta, um jovem (Paulo Prata) recém formado em medicina na USP (Universidade de São Paulo), desposado com a também recém formada em medicina na USP, Scylla Duarte, foi iniciar a vida profissional no interior de São Paulo. Escolheram a cidade de Catanduva, pois a família da jovem era de lá. A moça, de família rica, era filha de um grande fazendeiro não só da cidade, mas de toda a região. Este, como fez com todos os genros, propôs ao recém formado em medicina que trabalhasse com ele nas fazendas, pois, assim, os ganhos financeiros seriam muito maiores. Paulo Prata prontamente recusou. Aceitar seria exatamente o oposto de tudo o que ele sonhou e trabalhou (estudou) para conquistar. E assim, inicialmente em Catanduva e anos depois em uma cidade próxima (Barretos), ele desempenhou a profissão de seu sonho.

É possível, e natural, imaginar que um casal de médicos teria, financeiramente, uma boa vida. Soma-se a isso, o fato de a mulher “vir” de uma família extremamente rica. Bem, mas não foi que aconteceu. Paulo Prata não tinha em sua mente apenas exercer a profissão de médico. Ele tinha a ânsia de ajudar as pessoas, de salvar vidas. Com a ajuda de outros médicos, fundou o hospital São Judas Tadeu. Uma espécie de um hospital “clina geral”, em uma área aproximada de 1.500m². As consultas ocorriam não só no interior do hospital, mas também nas calçadas externas, tamanha a procura por atendimento. Cobrar consultas e procedimentos? Claro que sim! Mas o paciente não ter condições financeiras para pagá-las não era impeditivo para receber o devido tratamento. Pelo contrário. Todos que chegassem nesse hospital eram tratados com respeito. Tratar o paciente com amor proporcionando o melhor tratamento possível era o lema de Paulo Prata. Alguns anos depois, a procura por tratamento contra o câncer aumentou. O hospital não tinha condições para tratar esses casos e recomendava ao paciente procurar tratamento na capital do estado, São Paulo.

Meses depois, o mesmo paciente voltava ao hospital de Barretos (Hospital São Judas Tadeu) em busca de tratamento, pois não havia conseguido receber tratamento em São Paulo. O número de casos desse tipo foi crescendo e Paulo Prata percebeu a necessidade de o hospital se especializar em oncologia, até que começaram a trabalhar apenas com casos de câncer. “Renasce” aí o Hospital do Câncer de Barretos.

Mas não existe mágica! A conta de proporcionar o melhor tratamento possível e nem sempre receber não fecha. As inúmeras dificuldades que o hospital passou não cabem neste artigo e tão pouco em um único livro. Várias vezes, a esposa de Paulo Prata, Scylla Duarte Prata, teve que recorrer à ajuda financeira com seu pai, para minimizar as dívidas do hospital. Contudo, a filosofia de Paulo Prata sempre permaneceu intacta: tratar o paciente com Amor.

O tempo foi passando, o senhor Paulo e dona Scylla tiveram filhos e dentre esses, um adepto ao trabalho e avesso ao estudo. Esse guri, de nome Henrique Prata, nasceu com o DNA de seu avô fazendeiro. Até mesmo pela falta da presença de seu pai, que passava a maior parte do dia trabalhando no hospital São Judas Tadeu, Henrique foi praticamente criado pelo seu avô fazendeiro (Antenor Duarte Vilela).

Ainda criança, Henrique se mostrou com tino para o trabalho na fazenda. No ginásio, antes de ir para a escola, pactuou com seu avô de utilizar uma área de um frigorífico inutilizado e, também, acordou com seu tio que “emprestasse” umas vacas leiterias da raça Gir. Henrique, guri de 9 anos, acordava às 4 horas para ordenhar as vacas até o horário de se aprontar para ir à escola. Algumas vezes, não tinha tempo para tomar banho e trocar de roupa, passava a manhã na sala de aula exalando leite azedo. Aos dezesseis anos, Henrique comunicou ao seu pai que não queria mais estudar. Apenas se dedicar ao trabalho. Paulo Prata respeitou o desejo do filho. Não sei explicar se aceitou porque compreendeu a vontade de seu filho ou porque nem prestou atenção, pois estava com a cabeça em seus trabalhos, no Hospital do Câncer.

O tempo foi passando, Henrique Prata se mostrou em jovem empreendedor com tino para ganhar dinheiro, enquanto seu pai trabalhava em seu hospital que, para Henrique, não merecia nada além de “pegar fogo” e parar de dar prejuízo financeiro à sua família. Henrique, jovem e bem sucedido, não entendia como o pai “se matava” de trabalhar em algo que não lhe dava retorno financeiro. Até que Paulo Prata enfartou e coube a Henrique administrar o hospital durante o tempo de recuperação de seu pai.


Obs.: a história continua no próximo artigo.

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