Nova Prata, 23 de Outubro de 2021

Acima de tudo o amor — parte 2

Acima detudo o amor — parte 1

Se Henrique Prata achava que o hospital fundado pelo seu pai deveria pegar fogo e parar de dar prejuízo à família, durante as semanas que Henrique assumiu a gestão do hospital, enquanto seu pai se recuperava do infarto, ele deixou de achar isso. A partir de agora, Henrique tinha certeza absoluta e chegou a externar ao bispo Dom Antônio que se seu pai não se recuperasse: “fecho o hospital e ponho fogo nele”.

Após a recuperação de seu pai, Henrique deixou o hospital e seguiu trabalhando em seus negócios. Em 1985, Henrique novamente foi procurado para “salvar” seu pai. As dívidas acumuladas pelo hospital eram tamanhas que até mesmo Paula Prata percebeu que seu sonho havia acabado. O principal argumento usado para que Henrique assumisse o hospital era não deixar o sobrenome da família ser desonrado. Henrique falou com seu pai e, pela primeira vez, ouviu de Paulo Prata que de fato estava na hora de não mais continuar com seu sonho. Henrique aceitou assumir o hospital impondo uma única condição: após colocar as dívidas em dia, vender o hospital. Paulo Prata prontamente aceitou.

A partir de agora, o Hospital do Câncer de Barretos é assumido por uma pessoa sem estudo e com nenhuma sabedoria na área médica. Contudo, todos (os credores) apostavam na sua inteligência em empreender e ganhar dinheiro. Como bom gestor, Henrique se envolveu em todas as áreas, tomou conhecimento de tudo. Fazia comparações dos consumos até de álcool e algodão de diferentes profissionais.

Agora, imaginem uma pessoa sem estudo, com forte sotaque caipira e falando algumas palavras erradas, chamando um médico para debater o consumo de itens hospitalares. Em cada um dos questionamentos, em cada uma das discussões, Henrique sempre ouvia: você não sabe, você não entende, você não é médico. Usufruindo sobremaneira de termos técnicos, os médicos não só não aceitavam as determinações como também desestimulavam o prosseguimento de novas ações. Ninguém falou ou imaginou que seria fácil. Mas o preconceito dos profissionais da saúde dificultava ainda mais os trabalhos. Para tratar desse assunto, Henrique teve uma excelente ideia. Colocou um dos médicos que ajudaram seu pai a fundar o hospital como consultor técnico. Antes de discutir com os médicos, Henrique se munia de informações com o médico Zé Elias.

Henrique não esmoreceu. Teimoso como uma mula, seguiu forte em seu instinto. Mesmo porque finalmente o hospital seria vendido. Em uma das ações para diminuir custos, Henrique solicitou a substituição de um remédio importado (dos Estados Unidos) por um nacional similar cinco vezes mais barato. Neste item, Paulo Prata interveio e foi explicar a seu filho que o nacional não tinha o mesmo êxito que o importado e os pacientes do hospital mereciam receber o melhor tratamento possível. Henrique não concordou, mas aceitou e seguiu com o importado.

Nas tratativas para pagar as dívidas, Henrique surfou em seu conhecimento de negociador. Aos bancos e maiores credores chegava dizendo: quer ouvir uma proposta para pagamento dessa dívida comigo ou continuar sem receber com meu pai? Algumas dívidas foram congeladas em uma época de inflação mensal que beirava os 80%.

 

O tempo passou, as dívidas foram sendo refinanciadas até que sete meses depois de assumir o hospital, as contas estavam nos trilhos. Isso não significava que o hospital era autossuficiente, pelo contrário. Contudo, agora, o balanço financeiro não seria um impeditivo para a venda do hospital. Henrique foi à casa de seu pai, informar sobre as contas e “relembrá-lo” que o hospital seria colocado à venda. Mesmo com uma profunda tristeza, Paulo Prata disse para Henrique seguir com o combinado.

 

Naquele mesmo dia à noite, em reunião periódica com a equipe médica do hospital, Zé Elias disse a Henrique que precisava falar com ele, mas não ali e sim em um outro local. Levou-o para uma sala de curativos ao lado das duas únicas salas de cirurgia e disse: Henrique, você foi brilhante com as contas do hospital. Preciso agora pedir uma coisa que somente você consegue fazer! Zé Elias tirou um catálogo de dentro do livro de agendamento de cirurgias e disse: se você comprar esse foco cirúrgico de luz, que custa 5,5 mil dólares, nós transformaremos esta sala de curativos em uma sala de cirurgia. Hoje, atendi um senhor que somente poderá fazer a cirurgia daqui a 65 dias. Até lá, ele não resistirá. Se você comprar esse foco, conseguiremos fazer a cirurgia em menos de 20 dias. Henrique, você pode salvar vidas! Você pode salvar mais vidas que seu pai e eu como médicos.

Acredito que ao ouvir aquelas palavras, o coração de Henrique deva ter pulsado tão forte quanto o meu, quando li essa passagem no livro Acima de tudo o amor. Fiquei na torcida para que ele não vendesse o hospital e seguisse com seu trabalho salvando vidas. Henrique não dormiu naquela noite. Acreditar que com o seu trabalho poderia salvar vidas o instigou a mudar seu conceito sobre o trabalho de seu pai. Na amanhã seguinte, antes das sete, Henrique foi à casa de seu pai dar a excelente notícia: pai, pensei bem, e acredito que posso continuar gerindo o hospital. Posso salvar vidas!

Paulo Prata, em uma mescla de surpresa e indignação, disse: Você ficou doido? Nem pensar! Nem pensar! O hospital será vendido.

Obs.: a história continua no próximo artigo.

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