Nova Prata, 28 de Setembro de 2021

Acima de tudo o amor — parte final

Acima de tudo o amor — parte 1

Acima de tudo o amor — parte 2

Acima de tudo o amor — parte 3

Atrair grandes artistas brasileiros para ajudar na construção (e manutenção) do hospital foi um divisor de águas. Após a conclusão do segundo pavilhão (Chitãozinho & Xororó) os demais se sucederam. O fato desses artistas, antes de ajudar, conhecer o hospital e verificar os trabalhos que eram realizados, os instigavam a contribuir.

Com receio de passar ao leitor a falsa imagem de que as coisas ocorreram sem grandes problemas, sem grandes transtornos, sem muito trabalho e dedicação, mas também tentando resumir ao máximo essa linda história, segue: hoje, o que começou com aquele hospital (primeiro prédio, São Judas Tadeu), de aproximadamente 1.500 metros quadrados, virou um complexo hospitalar de referência mundial no tratamento oncológico. Em seus quase 200.000 metros quadrados, o Hospital do Câncer, rebatizado de Hospital de Amor, tem:

• Hospital infantojuvenil – em parceria com o hospital norte americano St. Jude Children’s Research, o Hospital de Amor é, no Brasil, uma escola de tratamento em oncologia pediátrica. Além de diagnóstico e tratamento sofisticadíssimos, o interior do hospital lembra mais um colorido centro de recreação infantil. A maior parte do tempo que uma criança fica no hospital é brincando. É comum ver no final do dia, crianças chorando porque não querem ir embora do hospital. Aproximadamente 500 crianças estão moradoras na cidade de Barretos para tratamento e, a cada ano, 600 novas crianças buscam o hospital para diagnóstico e tratamento. Lá tem o Palhaço Mingau (Doutor Mingau), como ele fala: médico besteirologista. Basicamente, ele passa o dia extraindo sorrisos de crianças que hoje lutam contra a doença que esse médico venceu nesse mesmo hospital.

• Lar de Amor – trata-se de um grande hotel (gratuito), porém, preparado para receber famílias, ao invés de hóspedes. Uma criança quando está em tratamento tem uma recuperação melhor quando está com toda sua família (pai, mãe e irmãos). E é esse o objetivo do Lar. Além de uma arquitetura moderna, com grandes quartos, salas comunitárias e refeitório, há também projetos de trabalho para as mães como o Projeto Crochet (e essas mães são remuneradas). Esse lar tem: biblioteca, brinquedoteca com monitoras e “adoleteca” voltada aos adolescentes. Mas, para mim, o mais legal é que também tem classes escolares, para que as crianças continuem estudando durante o tratamento. Sala com instrumentos musicais e aula de música e, vira e mexe, apresentações no auditório, além de duas capelas (católica e ecumênica). Como o hospital recebe muitas crianças de comunidades indígenas, há quartos com arquitetura específica para os índios. Nesses quartos, que lembram ocas, as famílias indígenas dormem em redes.

• Transplante de Medula Óssea (TMO) – uma subespecialidade da oncopediatria. É um prédio específico para a realização de transplante (maior centro de transplante pediátrico no Brasil) e tem um diferencial: todo o prédio é uma grande “bolha” que protege as crianças contra infecções. Como toda a unidade tem filtro de ar, as crianças não precisam ficar presas em seus quartos. Enquanto fazem o tratamento, elas podem ir à brinquedoteca, passear pelos corredores, etc.

• Tecnologia – o hospital conta com tecnologia de ponta, desenvolve cirurgias robóticas, procedimentos minimamente invasivos (alguns pacientes fazem cirurgias e recebem alta médica no mesmo dia). Tem o Research Institute Against Digestive Cancer (IRCAD) que já formou mais de 14 mil profissionais na área de medicina exata (robótica). Trata-se da maior escola da América Latina e a segunda maior do mundo.

• Instituto de Ensino e Pesquisa – Em 2020 o Hospital de Amor ocupou a primeira posição (Scimago Institutions Rankings) na América Latina em pesquisa, resultados de inovação e impacto social. O objetivo do Instituto é desenvolver conhecimento (para o Brasil e para o mundo) para prevenir, diagnosticar e tratar. Conta com laboratórios e equipamentos de última geração. Tem parcerias com inúmeras instituições nacionais e internacionais e também um projeto de extensão, que vai às escolas incentivar as crianças a se tornarem cientistas.

• Centro de Reabilitação – baseado nos melhores centros de reabilitação dos Estados Unidos, este centro tem a função de devolver o paciente à sociedade através da reabilitação; da protetização; do esporte adaptado; da profissionalização; etc. Tudo isso com o auxílio de modernos equipamentos e também ambientes que simulam uma casa para tarefas do dia a dia.

Todo esse tratamento de excelência é fornecido à sociedade de maneira 100% gratuita. Vou repetir: 100% gratuita. O repasse do Sistema Único de Saúde (SUS) garante ao hospital o máximo de 25% de todo o seu custo. O restante vem da ajuda da sociedade, principalmente de fazendeiros e artistas. Mas, o que me chamou a atenção nesse hospital não é o fato de sê-lo uma referência mundial ou o de ter um dos melhores tratamento do mundo, mas, sim, o fato de ter o tratamento humanizado. Lembra-se daquele primeiro prédio (Hospital São Judas Tadeu), onde tudo começou? Ele recebeu uma grande ampliação e reforma e é voltado para o tratamento paliativo. Ou seja, quando é constatado ao paciente que não existe possibilidade de cura pela ciência, ele é encaminhado para este hospital onde receberá tratamento digno. Conforto! Qualidade de vida!

Não só o paciente, mas o hospital está preparado para ajudar a família. Lá, além do tratamento humanizado, o paciente tem fisioterapia, limpeza bocal diária, musicoterapia (onde um músico profissional visita cada um dos pacientes e toca e canta o estilo musical que o paciente gosta). Há ambientes específicos para que o profissional de psicologia trabalhe com o paciente e com sua a família. Há, também, brinquedoteca com monitores, para que quando a família esteja com o paciente, as crianças fiquem com os monitores. Se o paciente tem algum sonho que não se realizou, o hospital busca realizá-lo. Se o paciente não se casou, o hospital faz o casamento. Se nunca teve festa de aniversário, o hospital providenciará a festa. Nenhuma data comemorativa (festiva) passa em branco! Confesso, que até a morte passa a ser vista com mais suavidade, mais leveza. O tom de voz dos profissionais da saúde é diferente.

Não existe mágica. Tudo que o Hospital de Amor faz tem seus custos. Este hospital (e todos os pacientes) precisam de nossa ajuda! Faça a sua parte e saiba que o valor está (e será) bem empregado. Doe ao Hospital de Amor.

Ao Sr. Edmilson Leandro Rodrigues (em memória).

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