Nova Prata, 05 de Fevereiro de 2023

Síndrome de Estocolmo

Assentada em um arquipélago formado por inúmeras ilhas, a bela capital da Suécia, Estocolmo, é conhecida mundialmente não só pela harmoniosa arquitetura ora medieval, ora vanguardista, mas também por um crime ocorrido na década de setenta. Em agosto de 1973, um assaltante (Jan-Erik Olsson) entra fortemente armado em um banco, no centro da cidade. Além do assalto ao banco, seu objetivo era sequestrar reféns para exigir a soltura de seu comparsa (Clark Olofsson) que estava preso. Tiros disparados, pânico generalizado, clientes correndo em desespero para fora do banco e o criminoso, ainda assim, “fez” quatro reféns.

A polícia de Estocolmo rapidamente fechou o cerco ao bandido e as negociações, pela liberação das vítimas, foram iniciadas. A exigência do bandido era: a soltura de Olofsson; uma grande quantia em dinheiro e um carro para a fuga.

 

Para diminuir a tensão, a polícia soltou Olofsson e o levou ao banco para se juntar a Jan. De posse das vítimas, os criminosos permaneceram por seis dias dentro do cofre do banco.

 

Isso mesmo! Os reféns ficaram por seis dias naquela situação de tortura psicológica e cárcere. A polícia sueca conseguiu a rendição dos bandidos, mas a partir daí inicia-se o mais interessante da história: os reféns se recusaram a sair antes dos bandidos, pois, temiam que a polícia ferisse ou mesmo matasse os sequestradores. As estranhas atitudes dos sequestrados não pararam por aí. As vítimas desses criminosos prestavam depoimentos à polícia e entrevistas à imprensa defendendo-os. Há menção de organização de vaquinha para pagar bons advogados de defesa, visitas à cadeia e até pedido de casamento por uma das mulheres que foi refém. Isso mesmo! Após o sequestro, a sequestrada queria se casar com o sequestrador.

O criminologista e psiquiatra Nils Johan Artur Bejerot que colaborou com a polícia sueca durante as negociações com os bandidos, ainda na época, cunhou a expressão “Síndrome de Estocolmo” para se referir às atitudes afetuosas das vítimas com seus algozes. Em sua tese de doutorado, Eduardo Ferreira Santos descreve Síndrome de Estocolmo como estado psicológico na qual as vítimas desenvolvem um relacionamento com seu agressor. A síndrome, considerada uma doença psicológica aleatória, se desenvolve a partir de tentativas da vítima de se identificar com seu agressor ou conquistar sua simpatia.

O Instituto de Psiquiatria Paulista salienta que a Síndrome de Estocolmo nunca foi colocada no “Diagnostic and Statistical Manual”, ou seja, não está listada no manual de doenças psiquiátricas. Contudo, também alerta que a “desvalidação” do termo não diminui a importância e a relevância dos quadros de sofrimento mental. De acordo com o Instituto, alguns dos sintomas são: confusão mental; agressão; dependência do aproveitador e irritabilidade. Já o médico e psicólogo Gonzalo Ramirez cita como um dos sintomas o “desenvolvimento de sentimentos positivos para o agressor”.

Diante dos crimes por ação direta, omissão e/ou incompetência que estão ocorrendo em nosso país desde o início da pandemia, estaria uma parte significativa da população brasileira sofrendo desta síndrome? O que mais explicaria o sentimento de algumas pessoas em defenderem e até mesmo idolatrar o seu algoz?

Com base em todos os textos e vídeos acessados para a emissão deste artigo, a ação da vítima em favor de seu malfeitor é uma autodefesa inconsciente. Mas, não nos preocupemos, tem tratamento.

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