Nova Prata, 23 de Outubro de 2021

Se beber, não poste

Sérgio Bavini, mais (e muito) conhecido como Sérgio Reis, é um cantor que fez parte da Jovem Guarda, na década de sessenta. Seu primeiro sucesso foi a romântica e melódica música “Coração de Papel”. Na década seguinte, após uma apresentação em um show, em Minas Gerais, do camarim ele ouviu uma banda tocando a música “Menino da Porteira” com participação ativa e contagiada do público. Naquele mesmo dia, à noite, decidiu gravar a música e comunicou ao seu produtor, que se surpreendeu, pois não combinava um “Jovem Guarda” cantando música caipira. A ruptura com as baladinhas da Jovem Guarda e o ingresso no mundo sertanejo, foi certeiro. Rapidamente, Sérgio Reis passa a ser uma celebridade nacional.
Cantor, compositor, apresentador e até ator (quem não se lembra da dupla Pirilampo & Saracura, na novela O Rei do Gado?), Sérgio Reis construiu uma carreira sólida e se tornou um dos artistas mais querido do Brasil. Gaúcho da Fronteira homenageou Sérgio Reis cantando: “Tão nobre que não tem preço, nós lhe temos muito apreço, por um bom homem e grande artista, Sérgio Reis é o paulista mais gaúcho que conheço”. E com o mesmo carinho, “Serjão” é tratado em outras regiões do país.
Mas, após 50 anos de carreira, sabe-se lá o porquê, Sérgio Reis “entra” na política. Não é difícil imaginar que a intenção do artista foi a de fazer algo de bom para a população brasileira. Em 2017, durante seu primeiro e único mandato como deputado federal, afinado com o governo Temer, foi o deputado campeão em recebimento de verbas para emendas parlamentares. Recebeu, aproximadamente, 8,4 milhões de reais, apenas naquele ano. Seus projetos eram concentrados nas áreas da saúde e previdência social. Em 2018, não tentou a reeleição, mas tentou eleger, sem êxito, sua atual esposa, Ângela Márcia.
Hoje, aos 81 anos de idade, mesmo sem mandato, Sérgio Reis vem deixando de ser evidenciado como artista, mas continua em voga como incondicional e fervoroso defensor do presidente Jair Bolsonaro. Após um almoço com Bolsonaro e reunião com os maiores produtores de soja do país, além de integrantes (segundo Sérgio Reis) do Ministério da Defesa, Exército, Marinha e Aeronáutica, ou seja, tudo bem planejado, organizado e estruturado, Serjão aparece em vídeos (abro parêntese para deixar bem claro que se trata de vídeos e não apenas um único áudio, que pode dar a entender que ele não sabia que estava sendo gravado) convocando e confirmando a presença dos caminhoneiros a fazer um protesto inicialmente pacífico, mas que se o Senado não acatar as suas “ordens” em 72 horas, com os caminhoneiros vão parar o Brasil, vão invadir o Supremo Tribunal Federal (STF), “quebrar tudo” e “tirar os caras na marra”.
A ideia e as falas são tão surreais, para uma pessoa com um mínimo de cidadania e bom senso, que instantaneamente repercutiram negativamente. O presidente da Associação Brasileira dos Condutores de Veículos Automotores (Abrava), se pronunciou expondo que “esses malandros têm que parar de usar a categoria (caminhoneiros) como massa de manobra”. As associações que envolvem os maiores produtores do Brasil, também emitiram nota expondo, de maneira convergente, que: não financiam e tampouco incentivam atos antidemocráticos. Sérgio Reis, em entrevista ao jornal O Globo, disse que tudo não passou de uma brincadeira. Já sua esposa externou que ele havia tomado umas pingas antes de falar. Inevitavelmente, eu imaginei uma chuva, Serjão em sua humilde residência com pontos de infiltrações dizendo “mas nesta casa tem goteira”.
Fato é que mesmo que Sérgio Reis esteja desrespeitando sua linda carreira de artista, nada apagará ou mudará o grande artista que ele é. Todos cometemos deslizes. Todos cometemos erros e com celebridades não é diferente. Em entrevista ao jornalista Roberto Cabrini, ele reconheceu o erro e se desculpou, inclusive, aos ministros do STF. Serjão: eu temo amo! Mas não trate o meu coração como se ele fosse de papel.
Para não sair da esfera sertaneja, não vou “pedir” aquela música de Cazuza ou aquela dos Titãs. Mas também não posso deixar de pedir: Xororó, continue cantando “Telefone Mudo”.

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