Nova Prata, 23 de Outubro de 2021

Entrelinhas

Cheguei à conclusão de que a vida acontece nas entrelinhas. Percebi isso ao abrir a caixinha de correspondência lá de casa dias atrás. Dentro dela, havia diversos panfletos de propaganda política, os famosos “santinhos”. Quase que invariavelmente os materiais traziam mensagens semelhantes: mais saúde, mais educação, mais segurança, enfim, uma vida melhor para os cidadãos.
Houve um tempo que a palavra dita já era mais do que suficiente para se tornar um contrato. Regido pelo “fio do bigode”, o acordo apalavrado ditava as regras que deviam ser obedecidas pelas partes. Depois, sentimos a necessidade de passar para o papel os devidos compromissos para uma posterior consulta, caso alguma dúvida surgisse, além da devida divulgação.
Sempre considerei a palavra, tanto oral, quanto escrita, algo sagrado. Comprometer-se efetivamente com as responsabilidades é sinal de caráter e de senso de civilidade. Colocar no papel, então, é como eternizar, tornar um documento perene registrando com toda a força desse gesto as intenções acerca de determinado assunto.
Porém, constato melancolicamente que as coisas não funcionam mais dessa forma e nem mesmo o papel e o seu simbolismo são respeitados. Fosse pela Constituição, nosso documento-mor, todos teríamos direito à saúde e educação, um local para morar, a oportunidade de sermos tratados de forma igual diante dos tribunais. Mas, a realidade, como todos sabemos, é bem diferente.
Ou seja, nem mesmo o que é lei é cumprido pra valer, a menos que alguém esteja fiscalizando. Fosse pelos intentos impressos vulgarmente nas propagandas eleitorais, viveríamos em um planeta maravilhoso. Por isso, a sensação é que a verdade somente é desnudada nas entrelinhas.
Nenhum postulante a cargo público se autodeclarará preconceituoso ou machista, por exemplo. Dificilmente alguma autoridade falará claramente que vai retirar direitos dos trabalhadores ou que está votando em uma lei que beneficia um patrocinador da sua campanha, pouco importando as consequências para a população. Entretanto, os seus atos, a forma como trata as pessoas e os temas mais sensíveis para o desenvolvimento da vida em sociedade, isso sim determinará o real comportamento.
É fundamental lembrar que nenhum político chega ao Legislativo ou Executivo sozinho. Depende dos votos e, consequentemente, da atitude de cada eleitor. Perdoem-me o clichê, todavia as autoridades eleitas não passam de um espelho, distorcido sim, mas ainda assim um reflexo da sociedade. Repassar toda a culpa pelos descaminhos para os políticos é fugir da própria responsabilidade com a nação.
Compreender as nuances é cada vez mais importante. Afinal, nos tornamos especialistas em dissimular e nem mais a representatividade da palavra escrita é forte o suficiente. Portanto, as atitudes expressas nas entrelinhas, essa sim, ganham relevância na hora de compreender o mundo que nos rodeia.

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