Nova Prata, 23 de Outubro de 2021

Metamorfose ambulante

Cada fase da vida parece carregar consigo um rol de convicções que ajudam a moldar a nossa personalidade. Porém, talvez, não haja nada comparado às certezas da infância, até pelas fontes extremamente confiáveis de onde vêm as informações. No aperto, a criança logo solta um “meu pai (e/ou minha mãe) disse”. E pronto. Fim de papo. Um dos progenitores oferecer uma afirmação que embasa aquela “verdade” é o bastante.
Pouco depois, na adolescência, com os aspectos de opinião mais enraizados, aí sim, a impressão que se tem, com raras exceções, é de que se é dono do mundo, quando mal e mal se é senhor do próprio nariz. Depois, devagarzinho, vai se descobrindo de que nem tudo é da maneira que se imaginava (ou se queria que fosse). Nesse passar de anos, me chama a atenção de quão sábias são as palavras do mestre Raul Seixas ao definir-se como uma metamorfose ambulante.
Não se trata aqui de propor ou exaltar uma alteração de caráter, como quem hora se disse de Esquerda e depois, do nada, mudou para a Direita; ou então de alguém que era gremista e, mais tarde já na vida adulta, resolve virar colorado. Não, não é isso. Entretanto, quando olho pelo retrovisor das minhas três décadas de vida, percebo como algumas das minhas antigas convicções viraram pó, como alguns ídolos da juventude não passam de uma lembrança agridoce.
E, na boa, como é bom ser assim e ter a consciência disso tudo. Fechar a mente para novas informações, pontos de vista, para experiências revitalizadoras é como parar no tempo, negar-se a possibilidade de conhecer o mundo de outro jeito. Lembro de ter lido um livro lá pelos meus 13, 14 anos e ter achado o “máximo”. Anos depois, com uma recordação nostálgica daquele título, resolvi retornar às mesmas páginas. A releitura não posso considerar como totalmente decepcionante, mas, no mínimo, “sem sal”.
Isso porque entre a primeira e a segunda leituras, a bagagem de vivências já tinha sido carregada com outros fatos, necessidades e informações. É como aquele velho clichê de que o rio que você olhou há um segundo já não é o mesmo rio desse instante. Assim, você vai percebendo que alguns amigos talvez não fossem tão amigos assim da mesma maneira que aquele livro não era tão bom quanto parecia.
Estar permeável para substituir velhas convicções por renovadas resoluções é sinal de sabedoria. Nada pode ser pior do que determinar-se a si mesmo o fim das possibilidades de ampliar os horizontes, tornando-se um velho ranzinza mesmo estando de uma “casca” de vinte e poucos anos, por exemplo. Faz bem para o coração e para a mente uma limpeza no arquivo de vez em quando, jogando fora páginas amareladas e corroídas pelas traças, colocando-as em seu lugar novas folhas repletas de vitalidade, sem, é claro, perder a base que forma o caráter e a personalidade.
O importante é que, como dizia Raulzito, “eu prefiro ser essa metamorfose ambulante do que aquela velha opinião formada sobre tudo”.

Veja outros colunistas

A culpa é nossa

Guido Denipotti

Guido Denipotti

[ Leia mais ]

No escurinho do cinema...

Guido Denipotti

Guido Denipotti

[ Leia mais ]

Salvem o símbolo augusto da paz

Guido Denipotti

Guido Denipotti

[ Leia mais ]