Nova Prata, 28 de Setembro de 2021

O valor do trivial

Qual é o valor de um sorriso? E o preço de um abraço? Qual seria o tamanho da fortuna capaz de substituir a sinceridade de um afago, de um carinho? As “coisas” de maior valor na vida são aquelas às quais chamamos de trivialidades. São aqueles gestos, atitudes e ações que nos acostumamos a ter no cotidiano, e de tão “comuns” perdemos a noção do quão importantes são para que nos sintamos realmente como seres humanos.
Ryan Coutinho é um menino de apenas seis anos, morador de Guajeru, um pequeno município do interior da Bahia. O maior sonho dele não era um moderno videogame ou o celular da última geração, tampouco o brinquedo da hora ou uma camisa do time do coração. O que Ryan mais queria era tão somente (como se isso fosse pouco) sorrir como os coleguinhas.
Afetado por um processo de cárie precoce, o menino perdeu praticamente todos os dentes. Por isso, ele costumava ficar recolhido, acanhado, longe dos colegas por vergonha por não ter dentes capazes de expressar os momentos de satisfação e alegria. Até que uma dentista, chamada Amanda Mattos, cruzou o caminho do garotinho. Como o estrago provocado pelas cáries era muito profundo, nem mesmo os dentes permanentes ele teria, e a única solução era colocar uma prótese dentária.
Porém, o sistema público de saúde não contempla esse tipo de serviço e a família não tinha condições de bancar o tratamento. Sensibilizada com o caso do menino que não podia sorrir, Amanda bancou por conta as despesas e desenvolveu a prótese para o pequeno Ryan. Na última semana, ele tomou conta das redes sociais com um sorriso radiante e chorou ao levantar-se da cadeira da profissional, emocionado porque agora, sim, ele poderia sorrir como os seus amiguinhos da escola.
Essa história do Ryan nos serve como um beliscão daqueles bem dados. Fazemos coisas dezenas, centenas, milhares de vezes ao dia e não percebemos o quão maravilhosas essas “pequenas” ações, que na verdade são grandes, representam. Parece que somente quando corremos o risco de perde-las é que nos damos conta da dimensão que elas possuem na nossa vida.
A capacidade de sentir, de respirar, de ver, cheirar, sorrir, abraçar, caminhar e tantas e tantas outras “coisas comuns” são as que fazem a vida valer a pena. Perder alguma dessas habilidades tampouco pode significar o fim da história, basta ver os inúmeros casos de superação que vimos recentemente nas Paralimpíadas e muitos outros mais em nossas cidades.
Identificar a beleza desses gestos cotidianos e, principalmente, agradecer por isso. No corre-corre do dia a dia, esquecemos do quão milagrosa é a existência de cada ser humano, da nossa presença neste mundo e quanto é especial termos a possibilidade de sentir a vida. Não há carro do ano, prêmio da Mega-Sena ou qualquer outro bem de consumo capaz de substituir por si só o brilho resplandecente de um sorriso como o do Ryan. Valorize o trivial. É exatamente aí que está o verdadeiro tesouro da sua vida.

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