Nova Prata, 23 de Outubro de 2021

Aqui jaz a humanidade

09 de novembro de 1989. Há pouco mais de 27 anos caía um símbolo feito de concreto e ferro da intransigência e da estupidez humana: o Muro de Berlim. A partir desse episódio, tudo indicava que ventos de solidariedade e integração soprariam sobre os continentes da Terra, mostrando que somos apenas uma raça, a humana, e que habitamos todos a mesma casa.

Porém, menos de três décadas depois, o que vemos é um movimento totalmente oposto às expectativas nascidas do ventre daquele monstro devorador de sonhos de 3,6 metros de altura e 155 quilômetros de extensão. Em um momento de instabilidade econômica mundial, que na verdade passa pela reconcentração dos recursos nas mãos de pouquíssimos, as portas voltam a se fechar e novos muros se erguem.

Somente neste ano, vimos a Inglaterra dar adeus à União Europeia e, mais recentemente, os Estados Unidos elegerem Donald Trump como presidente, o homem que tem como sua principal proposta expulsar os imigrantes e ampliar o muro na fronteira com o México. Na hora que sentei diante do computador para escrever esse artigo, fiz uma busca rápida no Google sobre o termo “mundo constrói muros”. Imediatamente apareceram dezenas de resultados, boa parte envolvendo notícias recentes.

Conforme dois cientistas políticos especialistas no tema, Ron Hassner e Jason Wittenberg, das 51 barreiras físicas surgidas depois da Segunda Guerra Mundial, 25 foram construídas entre os anos de 2000 e 2014. Ainda de acordo com eles, a Europa tem hoje mais separações físicas do que tinha na época da Guerra Fria.

Em praticamente toda a Europa pipocam muros e cercas contra os refugiados de guerras. Conflitos esses que têm o envolvimento direto ou indireto das grandes potências mundiais, valendo lembrar que são sedes de empresas que lucram bilhões com esses confrontos bélicos, diga-se de passagem.

Em Munique, na Alemanha, por exemplo, está sendo erguida uma barreira de quatro metros de altura e aproximadamente 100 metros de extensão em torno de um albergue de refugiados. Detalhe: os moradores que exigiram a construção alegaram que os imigrantes faziam muito barulho. Por isso, o isolamento é acústico também, mas para que o “barulho não escape”, ele foi projetado de maneira que não possa ser escalado. (Desculpem a ironia).

 Muito pior que os muros edificados com concreto e aço são os muros simbólicos. Espalhasse como um rastilho de pólvora uma nova onda de xenofobia, de racismo e de discriminação. O Papa Francisco alertou, na semana passada, que "vemoso quão rapidamente aqueles entre nós com status de estrangeiro, um imigrante, ou um refugiado, se tornam uma ameaça, assumem o status de inimigo. Um inimigo porque vem de um país distante, ou tem costumes diferentes".

 É compreensível, de certo modo, a angústia diante de tempos tão voláteis e de crise. De outro lado, apartar, criar rótulos e novos preconceitos, especialmente em uma Era conhecida como sendo a da Informação, não parece ser a saída. Estamos nos comportando de maneira parecida com os ratos: quando faltam alimentos na colônia, a primeira medida é o canibalismo, atacando os mais fracos. Se a humanidade optar por uma resposta que não seja a integração e a solidariedade, podemos decretar o fim dessa suposta humanidade, afinal não seremos nada melhores que os demais animais que habitam esse planeta, com o agravante de nos considerarmos racionais.

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