Nova Prata, 17 de Setembro de 2019

O que nos une

As feridas começam, lentamente, a cicatrizar. Vão deixar as suas marcas, obviamente, cumprindo a sua função de relembrar determinado momento. Passada a etapa inicial de comoção que abalou o Brasil e o mundo diante do trágico acidente envolvendo o avião da Chapecoense, a regeneração traz consigo as reflexões.

Juro que tentei escrever algo para a edição da semana passada, porém as palavras simplesmente não fluíam na tentativa de compreender um fato tão chocante. Agora, entretanto, consigo identificar alguns traços comuns a tudo que se viu, leu e ouviu. Quem gosta de futebol ficou profundamente abalado, da mesma forma de quem não gosta ou não acompanha tanto assim esse esporte.

Muita gente talvez não sabia quem era o William Thiego e as suas cabeçadas certeiras; ou o goleiro Danilo e seus frequentes milagres; ou o jovem lateral Dener, que chegou a jogar aqui na região, no Veranópolis Esporte Clube (VEC). Mas todos sentiram um profundo pesar pela simples e implacável certeza da finitude da nossa passagem pela Terra.

Quando jovens ídolos, no auge da sua carreira próximos de alcançar o sonho de um título internacional, terminam a sua trajetória dessa maneira, isso nos atinge como um balde de água gelada sobre nossas cabeças no intuito de nos alertar sobre algo tão óbvio e que esquecemos na correria da rotina: temos apenas uma vida. A nossa história por aqui pode acabar a qualquer instante, sem aviso prévio, sem que haja tempo de dizer um último “eu te amo” para a paixão da sua vida, sem a oportunidade de dar um abraço nos seus pais e irmãos e expressar o quanto eles são importantes, sem a chance de fazer as pazes com aquele amigo com quem você brigou por uma besteira que nem lembra mais qual foi.

De nada adiantará uma conta abarrotada no banco, à espera daquela viagem que nunca sobra tempo de fazer. De nada adiantará os planos de mudar de vida, de cidade, de fazer aquela faculdade, sempre à espera de “um tempo”, quando por mais que façamos planos para o dia de amanhã, não somos senhores completos de nossos destinos.

Talvez tenha sido esse sentimento capaz de nos emudecer diante das telas enquanto víamos aquela sucessão de rostos de garotos e homens que sacrificaram boa parte das suas vidas em busca de um sonho, interrompido por uma tragédia, sem que tivessem qualquer opção. Mais do que a memória esportiva e afetiva envolvida por essa triste página da História, busque transformá-la em estímulo para curtir mais a vida, fazê-la realmente valer a pena, demonstrando o carinho por aqueles que te querem bem. Uma conta bancária recheada ou uma parede repleta de diplomas e troféus não farão a mínima diferença no final de tudo, quando o que realmente ficará serão os gestos e atitudes com o próximo, especialmente pelos que amamos.

P.S: Na coluna anterior, intitulada “Aqui jaz a humanidade”, critiquei boa parte da sociedade atual, determinada a erguer muros, ao invés de proporcionar a integração dos povos. Aí vem os colombianos e dão um show de solidariedade nesse caso da Chapecoense, ressuscitando a esperança em um mundo melhor. Obrigado, colombianos!

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