Nova Prata, 20 de Junho de 2019

Tudo por um instante

Simone Biles inspira fundo. Abre um sorriso cativante para o público atento que a acompanha a cada movimento nas Olímpiadas Rio 2016. Parte em direção à trave em alta velocidade. Dá um salto beirando o impossível, com giros e piruetas que deixam qualquer ser humano “normal” de boca aberta. É praticamente a perfeição.
Ela é mais uma atleta que conquista (e empilha) medalhas de ouro no maior evento esportivo que termina no próximo domingo, dia 21. Atletas olímpicos como a ginasta norte-americana nos levam a refletir sobre como momentos de perfeição podem moldar os destinos das nossas vidas. Cada competidor dessas Olímpiadas para obter a cobiçada medalha dourada precisou desafiar os seus limites, ousar, enfrentar os adversários e, principalmente, os demônios internos, representados pelas inúmeras emoções envolvidas em momentos decisivos.
Aliás, a vida é exatamente isso: a busca pelo instante perfeito. Talvez Biles não conseguisse a medalha há um ano, talvez não consiga nas próximas Olímpiadas, mas naquele exato momento, naquele recorte de tempo reuniu os fatores necessários para construir a sua cena perfeita. Porém, muito antes de chegar a esse ponto, Biles foi resgatada com apenas três anos de idade das mãos da própria mãe, que sofria com a dependência química, e adotada pelo avô materno, a quem ela considera como pai. Na sua rotina, optou por estudar em casa para ampliar a carga horária de treinamentos para 32 exaustivas horas semanais.
História ainda mais impactante é a da brasileira Rafaela Silva, ouro no Judô. Alvo de ataques racistas depois de ser eliminada por um golpe ilegal nas Olímpiadas de Londres, chegaram-na a chamar de “vergonha”, Rafaela deu a volta por cima na Rio 2016. A mãe conta que, anos atrás, chegou a fazer bicos em um trailer de sanduíche para comprar um quimono mais próximo do que as meninas da rica Zona Sul da capital carioca usavam nos torneios. Agora, a filha campeã ajuda os pais não apenas financeiramente na construção de uma casa, como a carregar os materiais na obra.
Enfim, as Olímpiadas são uma fonte inesgotável de grandes histórias de superação, revestidas com suor e lágrimas, de alegria e de dor, capazes também de espelhar a vida dos demais sete bilhões de seres humanos. Pode ser que os nossos esforços não sejam exatamente recompensados com medalhas de ouro, prata ou bronze, mas acordamos cedo todos os dias, planejamos, batalhamos, sofremos para poder chegar àquele instante perfeito, onde o turbilhão de sentimentos explode em apenas um sorriso, capaz de resumir divinamente tudo. Mesmo que a plateia não saiba quantas feridas tenham sido abertas e cicatrizadas para chegar até ali.

Veja outros colunistas

Meus fuzis

Emir Rossoni

Emir Rossoni

[ Leia mais ]

Por que é tão difícil mudar o padrão?

Aline Machado Larrosa

Aline Machado Larrosa

[ Leia mais ]

O que são lesões bucais?

Reinaldo Zanotto

Reinaldo Zanotto

[ Leia mais ]