Nova Prata, 17 de Outubro de 2019

- em Saúde e bem-estar

Na era das fake news, campanhas de vacinação são cada vez mais importantes

Paula Sória Quedi, da Cidade do Panamá
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Há dois pontos nas campanhas de vacinação hoje que colocam o processo em xeque em nível mundial. O primeiro é uma espécie de "egoísmo". As pessoas acreditam que não precisam se vacinar ou levar seus filhos para se imunizarem porque a maioria em seu entorno está vacinada. Mas, quando se entra em contato com grupos de não vacinados, se ampliam as chances de contágio por doenças até então erradicadas. O outro ponto, tão relevante quanto o da não imunização, está relacionado a um fenômeno cultural contemporâneo: as fake news.

Facebook e WhatsApp têm sido difusores de informações distorcidas e, em muitos casos, falsas. E as pessoas tendem a acreditar na primeira informação que leem, sem levar em consideração a fonte. Mudar esse cenário tem sido uma tarefa hercúlea para profissionais de saúde e governos.

No Brasil, campanhas como #maisqueumpalpite (www.maisqueumpalpite.com.br), da Sociedade Brasileira de Pediatria, em parceria com a companhia farmacêutica Pfizer, tentam mudar esse quadro, apresentando as respostas da medicina para os maiores dilemas envolvendo a vacinação infantil. Foi também para promover o debate sobre os desafios da vacinação e das boas práticas para melhorar a cobertura na América Latina que a Pfizer reuniu, na Cidade do Panamá, jornalistas de 11 países da região, no Seminário Internacional de Vacinas.

Rodrigo Sini, diretor de assuntos médicos da Pfizer para a América Latina, reforçou o fato de que, em tempos de fakenews, as campanhas de vacinação se tornam cada vez mais importantes. Para o pediatra, não se pode esquecer que "a repetição é a mãe do conhecimento". "Necessitamos de continuidade. As campanhas são importantes, e as informações verdadeiras precisam ser reforçadas sempre", enfatiza.

Muitos dos questionamentos sobre a eficácia da vacinação vem do "me vacinei, mas mesmo assim fiquei doente". Isso é recorrente, principalmente entre quem se imuniza contra a gripe. Entre os mitos, está o fato de a dose aplicada ter levado à manifestação da doença. No entanto, Sini explica que no caso da gripe isso é impossível de acontecer, pois a imunização é elaborada a partir de um microrganismo morto.

Outra questão é que a imunização deve ser feita em antecipação ao pico de manifestação da doença. "Há um período de 10 a 14 dias para que a dose faça efeito. Além disso, para que se observe um efeito positivo, é preciso vacinar-se anualmente", argumenta.

Para que a taxa de eficácia seja maior, deve-se também levar em conta o número de pessoas vacinadas e o período em que isso foi mantido. Na prática, se 90% da população recebeu a dose por anos seguidos, cria-se o chamado "efeito indireto".

Daniel Curcio, diretor de vacinas em desenvolvimento da Pfizer, dá como exemplo a infecção por pneumococo - bactéria que é causa comum de infecções respiratórias (otite, sinusite, pneumonia) e também de infecções generalizadas (meningite e sepse) - em pessoas acima de 60 anos. "Os maiores transmissores da bactéria da pneumonia aos idosos são os netos menores de cinco anos. A imunização pela vacina pneumocócica conjugada 13-valente (VPC-13) reduz a prevalência da bactéria na faringe das crianças e leva à redução da doença em adultos."

O pneumococo habita principalmente a mucosa da região da nasofaringe. São mais prevalentes em crianças de até cinco anos, com um índice de colonização superior a 50%. Em adultos, a bactéria está presente em 5%. Já em fumantes, a prevalência aumenta para 15%.

Imunização a doenças pneumocócicas está disponível no SUS
No Brasil, o Ministério da Saúde incorporou, em março deste ano, a VPC-13 ao Programa Nacional de Imunizações do Sistema Único de Saúde (PIN/SUS) para pacientes com idade superior a cinco anos, que compõem o grupo de risco às doenças pneumocócicas (DPs), como meningite, pneumonia, artrite séptica, sinusite, otite média aguda, conjuntivite, bronquite, entre outras. Essas doenças relacionadas ao pneumococo são a principal causa de morte em faixas etárias extremas - menores de dois anos e maiores de 50 anos - , que pode ser evitada com vacina.

Desde 2011, os processos de inclusão das tecnologias são analisados pela Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias no SUS (Conitec) que, baseada em aspectos como eficácia, efetividade, segurança, além da avaliação econômica comparativa em relação às tecnologias já existentes no sistema público, recomenda ou não a incorporação de outras tecnologias.

Atualmente, o SUS disponibiliza dois tipos de vacinas pneumocócicas para prevenção das doenças relacionadas ao pneumococo: a polissacarídica 23-valente (VPP-23) para pacientes de alto risco e a conjugada 10-valente (VPC-10) para crianças de risco até os 5 anos de idade.

'A vacina vive o mal de seu próprio sucesso'
Médico pediatra formado pela Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo, com especialização em infectologia e pós-graduação em doenças pneumocócicas, Rodrigo Sini atua no segmento farmacêutico desde 2011, com expertise na área de vacinas por sua atuação na empresa farmacêutica Pfizer. Nessa entrevista, concedida ao Jornal do Comércio, na Cidade do Panamá, onde ocorreu o 5 Seminário Internacional de Vacinações promovido pela Pfizer, Sini falou sobre a dificuldade da vacinação de adultos, esclareceu questionamentos que colocam em dúvida a qualidade das imunizações aplicadas na rede pública e afirmou que “a vacina vive o mal de seu próprio sucesso”.
Jornal do Comércio - Hoje, a imunização contra a bactéria pneumocócica abrange menores de dois anos. Como fazer com que as pessoas fora dessa faixa etária, mas inclusas nos grupos de risco, se vacinem?
Rodrigo Sini - Hoje, no Brasil, quem recebe a vacina pneumocócica são os menores de dois anos de idade e pacientes no grupo de risco – com insuficiência cardíaca, diabetes, doença pulmonar obstrutiva crônica, com sistema imunológico enfraquecido em decorrência de doença ou outros fatores –, incorporados pelo Ministério da Saúde em março. Agora, qualquer pessoas que for em uma clínica, obviamente, pode tomá-la.

JC – A vacina pneumocócica conjugada 13-valente (VPC-13) deveria estar disponível para toda a população?
Sini - Sim, devido à carga da enfermidade das doenças causadas pelo pneumococo e as características inerentes a isso. Porém, vacinar adulto não é uma tarefa fácil. Pelo contrário. É um desafio extremamente difícil. Por exemplo, quando o governo compra um lote de vacinas, esse produto é biológico, tem uma validade, digamos que de um ano. Então, é necessário chamar toda a população para receber a dose e, se as pessoas não vêm, e passou o prazo, o que acontece? É dinheiro público jogado no lixo. Imagina então o trabalho que se tem, não apenas em comprar o produto, como de conscientizar, através dos meios de comunicação e dos profissionais de saúde, as pessoas para que se vacinem. Infelizmente, diferentemente de uma criança é mais difícil de exigir do adulto. Se a criança não estiver com a carteira de vacinação em dia não frequenta a escola, mas com o adulto como se faria isso? Essa conscientização é muito mais complicada. E isso não é apenas culpa da sociedade.

JC – As campanhas de vacinação têm sido colocadas em xeque principalmente de pela difusão de informações falsas e mitos formados a partir disso.
Sini - A verdade é que a vacina vive o mal de seu próprio sucesso. Quando a incidência de uma determinada doença é alta, a vacinação é efetiva. Com a erradicação de muitas doenças - o último caso de pólio na América Latina foi em agosto de 1991, no Peru -, deixa-se de falar daquela determinada doença, deixa-se de ver as consequências que causa e as pessoas deixam de se vacinar.

JC – Como alterar o pensamento que vacinação é para crianças?
Sini - Até um tempo atrás, imunização era algo de crianças. Porém, hoje, no site do Ministério da Saúde, no link do Programa Nacional de Imunizações (PNI), a campanha é Vacinação para Todos. Eles mudaram essa campanha faz apenas uns três anos, porque, até então, era focada em crianças. Hoje, o governo percebe que é uma coisa muito mais geral, muito mais global. Se nós, que somos profissionais, estamos mudando essa ideia pouco a pouco, até que isso fique enraizado na população vai demorar muito mais. Atualmente, temos a gripe como uma boa referência positiva para isso, porque a gripe tem uma taxa de cobertura maior, as pessoas estão indo se vacinar mais. Mas não podemos esquecer que a gripe teve o fator mídia, que foi o H1N1. Na época, gerou um medo muito grande pelo número de mortes divulgados pela mídia, o que levou as pessoas a se interessarem, a se importarem e a buscarem a vacina. Precisamos fazer isso com as outras também. A penumocócica é uma delas. Mas isso é um processo gradativo.

JC – Muitos pais acabam pagando pela imunização dos filhos por não confiarem nas doses disponíveis na rede pública. Existe alguma diferença entre as vacinas aplicadas nos postos de saúde e na rede privada?
Sini – Tenho orgulho de dizer que o Brasil tem um dos melhores programas nacionais de imunização, referência mundial, inclusive para a Organização Mundial de Saúde. As pessoas que trabalham no PNI são muito capacitadas. Então, posso afirmar que as diferenças observadas são muito poucas. O que ocorre, em alguns casos, é que o número de aplicações pode ser maior nos postos de saúde e a criança ter de levar duas picadas ao invés de uma. Um exemplo disso é a vacina da varicela. A que está disponível na rede pública é separada de sarampo, caxumba e rubéola. Na rede privada, há a quadrivalente e o paciente pode receber uma única dose. Mas a vacina em si, suas características em termos de eficácia, de segurança, de qualidade é igual, é exatamente o mesmo produto.

JC – Se uma mãe chega para o senhor no consultório e diz que não vai vacinar o filho, qual é sua reação?
Sini - O embate nunca é o melhor caminho. A conversa é a melhor maneira de resolvermos isso. Quando uma pessoa chega com uma afirmação dessa, a primeira coisa que pergunto é porquê? Qual razão te leva a tomar essa decisão? A partir disso, consigo desenvolver uma linha de raciocínio na qual explico a importância da vacina, mostro que a proteção em seu filho é tão valiosa que não vale a pena se questionar. A grande maioria das pessoas entende, se convence da importância e leva o filho para se vacinar. Pouquíssimas pessoas têm uma ideologia de que não deve receber as vacinas e aí, obviamente, fica muito mais difícil o diálogo. Nesses casos, opto por não acompanhar a criança, porque para mim é muito importante que um paciente faça a vacina. Se alguma coisa acontecer com esse paciente por uma doença que poderia ser previnida com vacina, ficaria extremamente abalado com isso.

Fonte: Jornal do Comércio

 

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